domingo, 11 de novembro de 2012

SÉRIE PROFETAS DA CONTEMPORANEIDADE

 
“A finalidade da educação ética é a formação da vontade ética. E, não obstante, não há nada mais inacessível do que essa mesma vontade ética, já que , enquanto tal, ela não é uma grandeza psicológica que possa ser abordada com instrumentos determinados. Em nenhum ato empírico de influenciação encontramos a garantia de ter atingido efetivamente a vontade ética enquanto tal. falta-nos a alavanca para o manejo eficiente da educação ética. Na mesma medida em que a lei ética pura (e, por isso, a única válida) é inacessível em si mesma, nessa mesma medida a vontade pura é impalpável para o educador.
Compreender esse fato em toda a sua amplitude constitui pressuposto de uma teoria da educação ética. De imediato, impõe-se a conclusão: uma vez que o processo de educação ética contradiz, por princípio, toda racionalização e esquematização, então ele não pode ter nenhuma finalidade com o ensino didático. Pois este representa, também por princípio, o instrumento de educação racionalizado.
(...)
Contudo, se apesar de tudo isso e a despeito de toda reflexão razoável, ainda se queira ensino de moral, então que não fuja aos perigos. Perigosas, hoje em dia, já não são mais as oposições do cristianismo primitivo: ‘bem-mal’ equivalente a ‘espiritual-sensual’; perigosos são os pares ‘sensual-bem’ e ‘espiritual-mal’, as duas formas do esnobismo. Nesses termos, o Dorian Gray de Oscar Wilde poderia servir de base a um determinado tipo de aula de moral.
Se, desse modo, o ensino de moral está muito longe de satisfazer a uma exigência pedagógica absoluta, ele terá entretanto o seu significado enquanto estágio de transição. Não tanto por representar, conforme vimos, um elo demasiado imperfeito no desenvolvimento do ensino de religião, mas antes por conferir  expressão às insuficiências da formação atual. O ensino de moral combate o elemento periférico, carente de convicção, em nosso conhecimento, combate o isolamento intelectual da formação escolar. O importante não será assenhorar-se do conteúdo dessa formação a partir de uma posição exterior, com a tendência do ensino de moral, mas sim apreender a história desse material de formação, apreender, portanto a história do próprio espírito objetivo. Nesse sentido deve-se esperar que o ensino de moral venha a constituir a transição para um novo ensino de História, no qual, então, também o presente encontra a sua inserção histórico-cultural."

In Reflexões sobre o criança, o brinquedo e a educação, Walter Benjamin, Editora 34, SP, 2002.
 

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