segunda-feira, 26 de novembro de 2012

SÉRIE: 'Segura, pião!' - VERÍSSIMO



QUEM SABE?

Diz a mecânica quântica
Que as partículas atômicas
Se comportam d eu jeito
Quando são observadas
E de outro quanto estão sós
(como, aliás, todos nós).
E quem nos assegura
Que o Universo que está aí
Não é como aí está
Quando ninguém está olhando?
E que quando os astrônomos
Se viram do telescópio
Pra a prancheta
O Universo não faz
Uma careta?

O corpo e a mente
Têm biografias separadas,
Cada um sua memória própria,
Seu próprio jogo de charadas.
Meu corpo tem lembranças
- cheiros, tiques, andanças –
Que a mente não registrou
E o corpo não tem as marcas
De metade do que a mente passou.
(Pior que uma mente insana
Num corpo sem muito assunto
É um corpo que já foi ao Nirvana
Sem que a mente tenha ido junto.)
Cada um tem um passado
Do qual o outro não tem pista
(como um bilhete amassado)
E nem o Mahabharata
Explica uma mente anarquista
Num corpo socialdemocrata.
Compartilham bioplasmas
E o gosto por certas atrizes,
Mas não têm os mesmo fantasmas
Nem as mesmas cicatrizes.
Das duas, uma, gente:
Ou toda mente é de outro corpo
- ou todo corpo mente.

In Poesia numa horas dessas? , Luis Fernando Veríssimo, Objetiva, RJ, 2002.

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