quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

COMEÇANDO... mais ou menos isso. (sem mitos do calendário)



No corpo

Creio que ele representa uma dessensibilidade que domina a gente de hoje, esse dessentimento estranho de estar sempre correndo atrás do ônibus que é um atraso. As forças da imaginação têm o poder da realidade quando se tornam forças de sobrevivência, ao desaparecer minha mãe, imaginei-me uma. Desconfio das pessoas que não gostam de literatura. Visto a relação entre as sombras e as coisas não estar definitivamente esclarecida.

EPÍGRAFE:

‘Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?”(última frase de A montanha mágica, Thomas Mann)

Que tem? Ir ou não ir. Não fui. Não vou, fico aqui no meu lugar. Na terra, no ar, no mar, aqui é o meu lugar.  Ser esta sina de ser ninguém sendo de todos; querendo a todos. Sempre, para sempre, sem porque, sem pra que. Só querendo querer. Sem ter querer, e querendo. Riso, gosto, desgosto, não parar, nem ser, querendo ser, sina destino maldição, querendo ser, querendo gostar, gostando de gostar, sem saber o que é isso, que seja isso gostar. Desprezo, não me importo, não me importo quero dizer, mas não quero desesperar-me mais, nem em espanhol, não me desespero mais. Não mais. Tão trivial, tão banal, tão inviável, disse sempre isso de mim mesma; e agora despedida, de cansaço específico, de dor fora da validade, de vida que não era fácil, quero dizer, falsa. Não vou mais. Não quero nenhum desespero, cansaço, dor, ou qualquer outra coisa desagradável que não uma própria desagradabilidade original. Como sem máscara? Não, não há como viver sem isso, acho isso, aliás, por demais nobre; quero máscaras alheias, cansaço de minhas próprias, agora estou sem; não há mais como arrancá-las. Aqui é agora, e sou quem sou. Não sou quem é, sou quem sou.  Existem incontáveis pontos de vista, eu sei incontáveis, não me interesso por nenhum deles; tenho o meu desse momento e só vejo esse: dedos. Mãos. Que escrevem. Dá licença, mundo. Dá licença, gente. Dá licença, eu. Só isso, eu quero passar, gente. Não quero ficar, não vou ficar, não quero falar, não quero que me vejam, quero ir. Quero andar. Não vou ficar. Porque eu quero a delicadeza, quero tudo isso que acabei de deixar, mas tudo com delicadeza, como eu sou, fui, isto é, fui e sou, mas havia  esquecido. Com licença, gente. Não me empurrem , não me procurem , não me importunem, não me busquem. Deixem-me, eu vou. Delicadamente, eu não falarei. O que vai ser ruim. Explicar, sorrir, sorrir, aceitar, aceitar, aceitar, aceitar, aceitar. Não. Não falo. Emudeci. Pronto. Eu fico aqui. Isto é, agora. Culpa? Chega. Chega. Chega. Não sinto. Ninguém entendeu. Está bem, não me importa. Não me importo. Não faço força alguma. Pronto. Em algum lugar, no meu lugar, eu sei das coisas. O óbvio sempre foi óbvio: eu sou inviável para lugares, seres, modos. Eu sou no meu não lugar. Você seria capaz de recomeçar do início? Escolher uma coisa e ser fiel a ela, fazer dela a razão de sua existência? Uma coisa que se torne tudo, pois  sua fé torna-a assim: no fundo só precisamos de um pouco de higiene, de limpeza, de desinfetante. Sufocados por palavras, por imagens, por dores sem razão de ser, que saem do nada e se dirigem para o nada. A um artista digno do nome, só se pede a lealdade de educar-se para o silêncio. Há o elogio da página em branco. São decisões dolorosas, mas  temos o dever de permanecer lúcidos até o fim. Há coisas supérfluas demais, e por demais, no mundo, mas desordem é inútil. Destruir é melhor do que criar, quando se não se trata do essencial. Pode afirmar honestamente que não tem nada a dizer? Pronto, tudo está de novo como antes, isto é, confuso. Mas essa confusão é o eu (famoso esse), e não como queria ser, e não tenho medo... De dizer a verdade, aquilo que não sei, que procuro e não achei ainda, vivo assim só, e posso olhar seus olhos sem sentir vergonha. A vida é uma festa, eu sei que é, não compreendo porque não pensam as pessoas assim, mas vou viver até a última gota, vou tomar o tal cálice, sem embriagar-me nem sofrer. E não falarei. Contarei uma história. Uma história verdadeira. Não posso viver sem escrever porque eu decidi que não é possível viver sem escrever. Ou melhor, decidi que não ser sem escrever. Ou que a vida é uma estupidez tamanha que eu só posso ser uma coisa, por mais estúpida que seja, ‘venha, vamos sofrer, vamos fazer um poema, ou qualquer outra besteira’, então só por isso resolvi que vou escrever, e que se viva por isso.  Parece divino. Tento manter-me comovida, excitada, ativa, cheia de sentimentos, tal como me dizem, e até gostam, dizem. Tudo mentira, verdade que eu gosto. Essa máscara, tão agarrada à cara, os gestos automatizados, e todas as pessoas, pessoas? Que é isso, pessoas? Esses seres esquisitos de apêndices, quatros soltos, ou semi-articulados, semi, porque não há articulação alguma, nada que faça sentido, ou seja, de alguma maneira alguma delicadeza, algum humano (?), e alguém pode dizer o que é isso, humano? Bom, de qualquer maneira já vi que a vida é uma porca miséria, um trem sem eira nem beira, e que o estudo da palavra vale... Pode ser que. Não respeitarei nenhum dos trens anteriores que tomei. Então vamos lá... Eu vou contar a história daquela moça, era moça naquele tempo, que  apareceu um dia não sei de onde, triste e bonita, e só, não, amante dos homens, como ela era inteligente, sei lá o que é ser isso, mas ela era, pois achava o pai uma pessoa interessante. Então, queria um homem. Tipo freudianamente. Contarei a longa história da vida. 
Magda Maria Campos Pinto

picc

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