domingo, 23 de dezembro de 2012

HOMENAGEM A LÊDO IVO:

 
Soneto da Porta

Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr do sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.

 Poderoso poeta,  intelectual claro, nordestino doce (redundância?). Morreu neste 23 de dezembro, aos 88 anos, em Sevilha. Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1987. Um amante da vida sem medo da morte. Poucos leram. Leiam, ele não se foi. É dos ficam, ainda quando partem.


“Que me deixem passar – eis o que peço diante da porta ou diante do caminho. E que ninguém me siga na passagem. Não tenho companheiros de viagem nem quero que ninguém fique ao meu lado. Para passar, exijo estar sozinho, somente de mim mesmo acompanhado. Mas caso me proíbam de passar por ser eu diferente ou indesejado mesmo assim eu passarei. Inventarei a porta e o caminho e passarei sozinho”.




Soneto Puro

Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
de verdes áreas de seu vão lamento.

Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.

Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.

Seja o amor como o tempo – não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.

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