segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

VIGÍLIA COM RILKE:

“Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. Se imaginarmos a existência do indivíduo como um quarto mais  ou menos amplo, veremos que a maioria não conhece senão um canto do seu quarto, um vão de janela, uma linha por onde passeiam o tempo todo, para assim possuir certa segurança. Entretanto, quão mais humana é aquela perigosa incerteza que faz os prisioneiros dos contos de Poe apalparem as formas de suas terríveis prisões e não desconhecerem os indizíveis horrores de sua moradia. Nós outros, aliás, não somos prisioneiros. Em redor de nós não há armadilhas e laços, nada que nos deva angustiar ou atormentar. Estamos colocados no meio da vida como no elemento que mais nos convém. Também , em consequência de uma adaptação milenar, tornamos-nos tão parecidos com ela que , graças a um feliz mimetismo,se permanecermos calados,quase não poderemos ser distinguidos de tudo o que nos rodeia. Não temos motivos de desconfiar de nosso mundo, pois ele não nos é hostil. Havendo nele espantos, são os nossos; abismos, eles nos pertencem; perigos,devemos procurar amá-los.”

In Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke, Globo , RJ, 1986.
 

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