segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

VIGÍLIA COM VINICIUS:




VELHO AMIGO (CONTO DE NATAL)

Fui eu próprio levar o peru – o meu primeiro! – para a sala, onde me vivaram devidamente. Vieram todos ver, entre goladas de champanha e interjeições de fome. Era, na realidade, um lindo bicho, e podia-se quase sentir sua maciez através da crosta dourada que o forno trabalhara em tempo rigorosamente proporcional ao peso. Uma beleza! Eu não cabia em mim de orgulho: muito mais do que se se tratasse de um poema ou uma canção. Meu primeiro peru – poxa! – e ainda mais para gourmets de categoria de Jorgito Chaves, Celso de Souza e Silva, Gilberto Bandeira de Melo, David Silveira de Mota, Geraldo Silos e Almeida Sales...
Isso no meu apartamento em Paris, no Natal de 1963.
Um pouco mais cedo, durante o cozimento da ave, meu parceiro Baden Powell sobreviera e ali mesmo, ao pé do fogão, balançara-me um samba também saidinho do forno; um sambão todo alegria, de bocarra aberta e braços para cima. Enquanto transávamos entre a cozinha e a sala, dando as últimas providências, a letra foi saindo...
Formosa, não faz assim
Carinho não é ruim
Mulher que nega
Não sabe não...
Tem uma coisa de menos
No seu coração!
E assim foi ele cantado por todos os circunstantes, durante oito horas e dez garrafas do mais puro escocês. Quando, já madrugadinha, a casa serenou, Baden e eu nos sentamos com as nossas mulheres e nos deixamos a lembrar Natais passados. Foi quando ele, pondo-se sério, perguntou-me se eu não queria pôr letra numa canção que fizera para seu pai morto um natal antes. Havia-se imposto o dever – disse-me – desse encontro musical com a morte do seu ‘velhinho’. A canção era linda e nos emocinou a todos fundamente. Já agora o ambiente tinha mudado. A casa não era mais a hospedeira de uma alegria que partira, mas de uma saudade que tinha chegado: uma saudade doída, feita dessa indefinível angústia de meninice, quando cada sentimento é uma paixão e cada coisa que  se passa, um acontecimento extraordinário. Peguei papel e lápis e, os olhos velados de lágrimas, comecei a tentar...
Neste dia de Natal
Em que já não estás comigo
Ó deixa-me chorar
Ao relembrar a valsa
De um Natal antigo...
Ao soar da velha hora
Eu te via, velho amigo,
Entrar bem devagar
Me beijar, e ir chorando embora...
... eu fechava os olhos, fingindo não o ver, enquanto ele se aproximava bem de mansinho e pendurava o grande pé de meia de filó vermelho, cheio de brinquedos, na cabeceira de minha cama, e empilhava no chão, por ordem de tamanho, os embrulhos entre os quais eu sabia estar – ah! Prazer divino! – o Almanaque do Tico Tico, com milhões de coisas a recortar e armar; e logo, o coração aos pulos, eu via través de uma frincha de olho seu rosto vir se agigantando sobre o meu, vir se agigantando até uma incomensurável imagem, a imagem do amor paterno, o amor que gostaria de dar tudo sem poder: toma esse navio de verdade! Toma esse trem de ferro da Central! Toma essa ponte levadiça! Toma esse automóvel de corrida! Toma esse edifício! Toma o que você quiser! – pedido de perdão de um pai que de seu só tinha o nome; e uma vez, esquecer também uma lágrima que lhe gotejou na carícia e ficou a tremular em minha pele como a incerta gota de orvalho sobre a folha nova, e da qual escorreu com a instantânea lentidão das coisas do Infinito, a morte das estrelas, o nascimento das galáxias, as viagens da luz...
Meu velho amigo
Por que foste embora...
Desde que tu partiste
O Natal é triste
Triste e sem aurora...
Naquela sala, em que a madrugada começava a filtrar, dois mortos de pé consideravam com espanto dois homens que não podiam cantar, de tal modo as lágrimas se lhes corriam, tão convulsivo se ia fazendo seu pranto de órfãos, de meninos sem Papai Noel. E mais surpresos se puseram ainda ao ver que nos abraçávamos todos, nós homens porque não tínhamos mais pai, nossas mulheres choravam a mesa, as cadeiras, as garrafas vazias e até os restos do peru de Natal, do qual repontavam ossos brancos. E tanto que, chocados, se foram retirando discretamente, a conversar em voz baixa – certamente sobre a frouxidão desses filhos modernos que nem sabem mais aguentar a tristeza e saudade específicas de uma noite de natal.
Natal de 1964.
In Poesia Completa e Prosa, Vinicius de Moraes, Editora Nova Aguilar, RJ, 1976.

 

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