sábado, 29 de dezembro de 2012

VIGÍLIA COM VINICIUS:



O POETA E A LUA
 
Em meio a um cristal de ecos  
O poeta vai pela rua  
Seus olhos verdes de éter  
Abrem cavernas na lua.

A lua volta de flanco  
Eriçada de luxúria  
O poeta, aloucado e branco 
Palpa as nádegas da lua.

Entre as esferas nitentes  
Tremeluzem pelos fulvos  
O poeta, de olhar dormente 
Entreabre o pente da lua.

Em frouxos de luz e água 
Palpita a ferida crua  
O poeta todo se lava 
De palidez e doçura.

Ardente e desesperada  
A lua vira em decúbito  
A vinda lenta do espasmo  
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços 
E o ventre que se menstrua  
A lua se curva em arco  
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito 
 Em frêmitos que perduram  
A lua vira o outro quarto  
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço 
Desfeito em estrelas e nuvens 
Nos ventos do mar perpassa  
Um salso cheiro de lua.
E a lua, no êxtase, cresce  
Se dilata e alteia e estia  
O poeta se deixa em prece  
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.

 

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