sábado, 12 de janeiro de 2013

CENTENÁRIO DE RUBEM BRAGA

 
 Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim em 12 de janeiro de 1913 e morreu no Rio em 19 de dezembro de 1990. Sem delongas, deve ser considerado o maior cronista brasileiro: pela singularidade do seu texto, do alto teor poético, por seu humor, sutileza, qualidade literária, vasta cultura e tais e tons. Foi jornalista (desde os 15 anos), profissão que o levou a diferentes circunstâncias; entre outras, foi correspondente de guerra junto à FEB. Formou-se em Direito em Belo Horizonte, onde encontrou amigos para a vida toda. Exerceu também função diplomática, morando algum tempo em Rabat, capital do Marrocos. Tenho relações particulares com Rubem Braga, autor de uma das mais lindas cartas de amor que já recebi: a crônica ‘A mulher e seu passado’, que já apresentei aqui. E reapresento hoje para homenageá-lo outra vez (e a mim, naturalmente).  É assim a vida, rememorizações, reencontros, repetições e celebrações.  Por tantas razões é preciso comemorar Rubem Braga...
 
(com Paulo Mendes Campos, Carlinhos de Oliveira, Sergio Porto, Fernando Sabino e Vinicius de Moraes)
A mulher e seu passado

Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: “Você é meu amigo ou amigo da onça?”
Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não lhe confesso que aprovo e abençoo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado, e tenho vontade de dizer:
“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbado de rua que te assustou; e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranquilo, e o tédio; a e a mulher anônima que vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “ moça linda..”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”
Abril, 1964.
 


2 comentários:

  1. Sobre a vida – e principalmente as circunstâncias que cercaram a a morte de Rubem Braga – vale a pena ler este excelente texto do mauro santayana, do Jornal do Brasil:
    http://www.maurosantayana.com/2013/01/rubem-e-o-poder.html

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    1. Ei, Letícia, obrigada pela dica... Rubem Braga é valioso, lerei, comentarei certamente por aqui, obrigada outra vez

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