quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Esquenta para o grupo de estudos:

“É, como dissemos, um postulado da fenomenologia que o fenômeno seja lastrado de pensamento, que seja logos ao mesmo tempo que fenômeno. Não se pode pois conceber o fenômeno como uma película de impressões ou uma cortina atrás da qual se abrigaria o mistério das ‘coisas em si’. Hegel já dizia que atrás da cortina não há nada a ver. Falar de uma visão das essências não significará pois devotar-se a uma contemplação mística que permitiria a alguns iniciados a ver o que o comum dos mortais não vê, mas ao contrário ressaltar que  o sentido de um fenômeno lhe é imanente e pode ser percebido, de alguma maneira, por transparência. (...) Onde poderão elas então residir? Muito simplesmente na consciência, já que é como vivências de consciência que elas se dão a nós. Mas então surge uma nova dificuldade: se elas estão na consciência, nós vamos reduzi-las a simples fenômenos psíquicos, tributários por sua vez da psicologia e recairemos nesse psicologismo que Husserl tão vigorosamente refutou. Cumpre, pois, que elas sejam acessíveis somente na consciência, mas que elas não se confundam jamais com os fenômenos de consciência que competem à psicologia. É aqui que Husserl vai recorrer à noção fundamental de intencionalidade da qual já se servia Brentano, que a tomara ele próprio à filosofia medieval.

O princípio da intencionalidade é que a consciência é sempre ‘consciência de alguma coisa’, que ela só é consciência estando dirigida-para um objeto (sentido de intentio). Por sua vez, o objeto só pode ser definido em sua relação com a consciência, ele é sempre objeto-para-um-sujeito. Poderemos, pois, falar, seguindo Brentano, de uma existência intencional do objeto na consciência. Isto não quer dizer que o objeto está contido na consciência como que dentro de uma caixa, mas que só tem seu sentido de objeto para uma consciência, que sua essência é sempre o termo de uma visada de significação e que sem essa visada não se poderia falar de objeto, nem, portanto, de uma essência de objeto. Dito de outra maneira, a questão ‘o que é o que é?’, que visa o sentido objetivo ou essência, remete por sua vez à questão: ‘o que se quer dizer?”, dirigida à consciência. Isso significa que as essências não têm existência alguma fora do ato de consciência que as visa e do modo sob o qual ela os apreende na intuição. Eis por que a fenomenologia, em vez de ser contemplação de um universo estático de essências eternas, vai se tornar a análise do dinamismo do espírito que dá aos objetos do mundo seu sentido. Deste sentido, pode-se dizer que, ao mesmo tempo, ele depende da liberdade do espírito, que poderia não produzi-lo, e que,  não obstante, ultrapassa a contingência dos atos de consciência por sua universalidade e sua necessidade.” 

In O que é a fenomenologia?, André Dartigues, Eldorado, RJ, 1972.


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