quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ohran Pamuk, Turquia, cinema...

 
  
Foi com Orhan Pamuk que redescobri a Turquia, isso significando exatamente descobri-la, despi-la dos estereótipos com que nos foi, e é, apresentada. Desde então, como me apaixonei por Pamuk, tenho feito deliciosos mergulhos na Turquia. O país está se renovando, reencontrando a identidade (quer dizer, penso eu, está com força para mostrar-se). Foi assim que cheguei ao filme ‘Pandora'nın kutusu’. O filme da diretora Yesim Ustaoglu, venceu em 2009 o 56º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, recebendo também outros dois prêmios: melhor direção e melhor atriz. É ótimo, tanto por razões técnicas como pelo manejo do conteúdo. Este, são as nossas mazelas da modernidade pós-tudo de cada dia. Prefiro, por vezes, dizer: ‘a nossa vida contemporânea sobre escombros’. Pois é (dizem-me exagerada e dramática. Assumo: sou, mas não perco o fio nem a linha. No mais das vezes, é claro). O tema principal é a doença da mãe – idosa, solitária, último membro (centro) de um fragmentado grupo moderno de classe média (chamava-se família, mas penso que precisamos renomear isso...). Muitos filmes (bons) já se debruçaram sobre o tema, alguns deles já falamos aqui. Aliás, pode-se dizer que praticamente já é tema recorrente (‘Amour’ está aí... vencendo festivais, enchendo salas). “Pandora's Box” (chamei o nome muito adequado) destaca-se pelo encaminhar da trama, uma percepção sutil que parece passar despercebida pela maioria. Diga-se logo, aliás, que é um filme para cinéfilos. Para mim, a princípio, isso quer dizer: gostar de observar, deliciar-se com detalhes, ter uma boa veia contemplativa e outra boa veia crítica (claro que a definição não acaba aí... mas tá bom por enquanto). Em meio às inevitáveis confusões e desencontros de três irmãos adultos (um irmão e duas irmãs – solitários, muito diferentes entre si, vivendo na grande metrópole Istambul e emigrados do vilarejo das montanhas onde vivia a mãe) emergem emoções sufocadas e explosões de verdades.  Durante o encontro obrigatório para saber o que fazer ‘com uma mãe demenciada, solitária e quase estranha’ surge outro sujeito: o neto. A terceira geração, que apresenta o deslocamento máximo – devemos falar em deslocamentos, assim no plural, para pegar um viés desse histórico – sofrido na entrada dessa que chamei ‘a vida sobre escombros’, a saber, a vida das gerações da segunda metade de século XX. O neto está literalmente na rua. Tem casa, pai e mãe, tem celular, internet, droga, tem escola... e não tem nada. Está a esmo. A esmo como sua avó, que acabou de conhecer.  E só eles, os reconhecidamente ( atenção : reconhecidamente ) perdidos, se entendem. E lúcidos, à perplexidade. E eles se encontram. Lindo filme. A se destacar também o final. Corajoso e poético.
 

p.s: ATENÇÃO GRUPO DE ESTUDOS: ESSE FILME ENTROU PARA A BIBLIOGRAFIA DO SEMESTRE.

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