sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA

 
“Dafé circulou os olhos pelo quarto, bastante escuro apesar da janela aberta, deteve-se um tempinho na imagem de Nossa Senhora do Amparo, a cabeça levemente curvada para baixo, as mãos oferecendo ajuda e consolação, a lamparina fazendo seu manto parecer manchado de vermelho-ouro. Nunca aprendera a gostar daquele quarto em que dormira tontos anos e em que tanto se trancara, apesar da proibição, para ler até mesmo livros estranhos dos quais não  entendia nada. Mas também não lhe queria mal, era como um amigo meio incomodativo, mas a cuja companhia a gente se habitua. O canto molhado, quase uma frincha úmida, um vão de parede tão estreito que a mão podia penetrá-lo de lado, continuava lá e continuava a meter-lhe medo, embora não mais como quando era pequeninha e pedia para alguém deixar nele uma vela acesa, com seus bichinhos ciscadores fazendo barulhos à noite e voando para a cama. Abriu as duas portas do guarda-roupas, começou a catar suas coisas. Não ia caber tudo na canastra azul que Vô Leléu lhe dera, ia ter de fazer trouxas, porque não queria deixar nada. Tinha até separado algumas coisas que resolvera antes não levar, mas agora levaria tudo, nada dela ia ficar ali. Se fosse o caso, daria aquele tarecos de presente lá no Baiacu mesmo, mas levaria tudo.”

Fragmento de Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro,   Nova Fronteira, SP, 2007.
 

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