sábado, 19 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA

 
“ – É a efígie de Nossa Senhora da Soledade, minha madrinha. Conheces a  história da imagem que está na igreja do meu pueblo? Não? Pois um dia houve um furacão medonho, parecia um fim de mundo, o mar ameaçou invadir a terra. O vigário de Soledade del Mar rezou uma missa na hora da tormenta, pediu a Deus que tivesse compaixão de toda aquela boa gente. Durante a noite inteira, a ventania continuou uivando, o mar batendo na praia. Os que moravam na parte baixa da vila se refugiaram nas casa de parentes e amigos na parte alta. Um raio caiu na cadeia municipal, matou dois guardas, e todos os presos fugiram. (Nesse tempo eu devia ter uns dez ou onze anos.) Fiquei na janela do meu rancho boa parte da noite, olhando para a montanha, que eu avistava longe, ao clarão dos relâmpagos... para  montanha onde Juan Balsa se escondia com seus guerrilheiros. Eu rezava, pedia a Deus que poupasse os revolucionários mas atirasse seus raios contra o quartel do 5 º Regimento de Infantaria. Quando o dia raiou, o furacão tinha passado, o céu estava limpo, o sol de novo apareceu. E então os pescadores descobriram na areia, à beira do mar, um vulto estendido. A princípio pensaram que era o cadáver de algum náufrago. Depois viram que era a imagem de madeira duma santa, que as ondas tinham atirado na praia. Veio o pároco e mandou levar a figura para a igreja. Durante muitos dias procuraram saber de onde tinha vindo a imagem. Ninguém sabia dizer. Não se tinha notícia de nenhum naufrágio. Só podia ser um milagre... então o cura mandou restaurar a escultura, e Maestro Natalício veio com suas tintas e pintou a santa. E ela ficou mais bonita que a Virgem de Macarena que está numa igreja de Sevilha e é a padroeira dos toureiros. E o arcebispo veio em pessoa de Cerro Hermoso a Soledade del Mar para consagrar a imagem, que recebeu o nome de Nossa Senhora da Soledade, foi posta num nicho na igreja e passou a ser padroeira da vila... e minha madrinha...
Gabriel Heliodoro calou-se. Rosalía revolvia a medalhinha entre os dedos. Não podia compreender aquele homem. Mas... podia ela compreender-se a si mesma?”

Fragmento de O Senhor Embaixador, Érico Veríssimo, Círculo do Livro, SP, 1974.
 

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