quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: Literatura Brasileira

“O Dito gostava de comer pipocas. A Rosa batia na tampa da caçarola com uma colher de ferro e pedia a todos para gritarem bastante, e a Rosa mesma gritava os nomes de toda pessoa que fosse linguaruda: - “Pipoca, estrala na boca de Siá Tonha do Tião! Estrala na boca de dona Jinuana, da Rita Papuxa...”. Miguilim vinha trazer as pipocas, saltantes, contava o que a Rosa tinha gritado, prometia que Papaco-o-Paco já estava começando a soletrar o nome do Dito. O Dito gemia de mais dor, com os olhos fechados. – “Espera um pouco, Miguilim, eu quero escutar o berro dessas vacas...” Que estava berrando era a vaca Acabrita. A vaca Dabradiça. A vaca Atucã. O berro comprido, de chamar o bezerro. – “Miguilim, eu sempre tinha vontade de ser um fazendeiro muito bom, fazendo grande, tudo roça, tudo pastos, cheios de gado...” _ “Mas você vai ser, Dito! Vai ter tudo...” O Dito olhava triste, sem desprezo, do jeito que a gente olha triste num espelho. – Mas depois tudo quanto há cansa, no fim tudo cansa..” Miguilim discorreu que amanhã vovó Izidra ia pôr o Menino Jesus na manjedoura. Depois, cada dia ela punha os Três Reis mais adiantados um pouco, no caminho da Lapinha, todo dia eles estavam um tanto mais perto – um Rei Branco, outro Rei Branco, o Rei Preto – no Dia de Reis eles todos três chegavam.. “- mas depois tudo cansa, Miguilim, tudo cansa...” E o Dito dormia sem adormecer, ficava dormindo mesmo gemendo.”

In Manuelzão e Miguilim, João Guimarães Rosa, José Olympio Editora, RJ, 1972.

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