segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA


 “A discussão prosseguiu assim no confronto entre as feras da selva e as do mar. Ele, o marinheiro, sempre a fitar-me. Meu coração disparou de tal modo, aqui no peito, que tive medo ouvissem as pancadas. A mulher adivinha, Iuta, quando chega o homem. E ele, aquele homem, me arrancou do Clube já como o único dono da minha vida. Me entreguei ao senhor e cega e surda fiquei para tudo mais que não fosse ele. Quem era, Iuta, quem é o seu pai: sou capaz de jurar que o próprio Deus não sabe. Um nome, tinha um nome, Vicar. Nome talvez falso, um desembarcado que veio em pesqueiro de São Tomé, mas marinheiro que ensinava os segredos do mar aos pescadores de Luanda. Passamos a morar aqui, perto do porto, numa casinha alugada.

- Ninguém conhece o mar como ele! – todos exclamavam.

Brasileiro de rosto sardento, sem tatuagens nos braços, mas marinheiro de verdade. Grávida de você, deitada ao lado dele, perguntava onde nascera, se os pais ainda viviam e não deixara uma mulher atrás. O medo, Iuta, medo que voltasse um dia para o Brasil. Não tinha ninguém – nem mãe, mulher e filho – ele jurava. Apenas eu, Corina Mulele, e a criança a nascer. Sabia, porém, que Vicar tinha o mar, criatura mais do mar que da terra, capaz de morrer se o prendessem em chão firme. Que dia, a qualquer  momento, poderia não regressar. E por isso eu rezava, rezava muito, pedindo aos santos.”

Fragmento de Luanda Beira Bahia, Adonias Filhos, Civilização Brasileira, RJ, 1979.

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