quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA


“Largo os livros mortos, sento na minha cadeira, olho as outras e o sofá vazios. Longe no tempo me levam as volutas da fumaça dum pensamento caprichoso e triste. Dizem que os que vão morrer, no último instante do irremediável, vêem passar como num filme, cada fasto de sua vida. Minha insônia tem um pouco desse fenômeno. Vejo, como num exame de consciência, minhas misérias e grandezas cotidianas. Desfilam os amigos que se foram. Eu os tinha deixado na sala de jantar, na de visitas. Agora, nessa saleta eles tomam seus lugares favoritos. À minha frente Gastão Cruls senta-se na cadeira de braços, palhinha antiga no assento e no encosto de medalhão. Perto da lâmpada, à sua esquerda – e que não projeta mais sua sombra. Cruza suas longas pernas, ora a direita em cima, ora a esquerda. Cigarro depois de cigarro na sua piteira de marfim rachada num tombo, restaurada por anel de prata, novamente servindo e toda quilotada do pardo precioso da nicotina do fumo fumado refumado. Lendo página por página seu De pai a filho que a opinião de outro amigo quase o levar a destruir. Posso dizer que impedi isto tranquilizando Gastão sobre a qualidade da sua estória. Isto foi em 1953 ou 54... e não fui insincero. Esse romance, além de ser um estudo admirável dos costumes cariocas numa fatia de belle époque, na paisagem social e física de um Rio desaparecido mas vivido por Cruls e pelos seus, é também o mais perfeito exemplar que conheço da narrativa dramática cujo bordado tenha sido feito sobre um risco de freudismo e de conhecimentos psicanalítico.   um médico, médico dobrado de psicólogo e de literato com o era Gastão – podia ter dado romance dessa qualidade. E pensar que ele esteve rasga não rasga essa sua melhor novela... ouço longinquamente sua voz. A velha voz que consigo realizar perfeitamente nas suas inflexões e sonoridades que me restituem nossas longas conversas da Ladeira da Glória , da Rua das Laranjeiras, da casa de Rodrigo no 181 de Bulhões de Carvalho, de sua casa de Amado Nervo, ao alto da Boa Vista, com o jardim cheio de plantas tropicais e de bastões-do-imperador florescendo, com a varanda aberta às borboletas e à bicharada noturna, varanda propícia para as conversas, onde vinham sentar-se e falar aos sábados Miguel Osório, Gilberto Amado, Américo Facó, Manlio Gudice, Órris Sares, Lúcia Miguel Pereira, Otávio Tarquínio, mestre Gilberto Freyre. Um uísque discreto ajudava.”

Fragmento de Galo das Trevas – Memórias/5 – Pedro Nava, Livraria José Olympio Editora, RJ, 1981.

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