sábado, 26 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA

“Samuel. O melhor e o pior entre nós. O que mais comia e o que nunca engordou. O que mais nos amava e mais nos insultava, e cuja palavra preferida era ‘crápula’, usada para definir todo mundo, desde “Ó esse crápula” para chamar o garçom até “Santo Crápula” para o papa. O mais lúcido e o mais obsessivo de todos – e o que morreu por último, morreu na minha frente, este mês, e morreu pior. E finalmente o Ramos. O que nos convenceu que a nossa fome não era só fome física, que éramos iluminados, que a nossa voracidade era a santa voracidade de uma geração, ou que pelo menos não éramos filhos da puta completos. Ramos fazia os discursos nas nossas reuniões, “Os sermões do crápula-mor”, com dizia o Samuel. Tudo  começara com ele. Foi ele que transformou um dos nossos jantares normais numa solenidade, e inaugurou o clube ‘com os dez que estão nesta mesa, e nunca mais do que estes dez’, até que a morte ou as mulheres nos separassem. Depois molhou pedaços de pão no vinho para que todos os mastigassem em conjunto e engolissem, valendo o gesto como um voto sagrado de adesão, uma cerimônia que comoveu muito ao Abel pela sua alusão eucarística.” 

Fragmento  de O Clube dos anjos, Luis Fernando Veríssimo, Objetiva, RJ,1998.

 
P.S:  com saudades, querido Veríssimo.

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