segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA



“O Vítor voltou pro passado numa terça-feira de manhã. Ele  estava na segunda série, e as férias tinham recém-acabado. Ainda era verão na floresta onde ele morava; toda a tarde chovia; a terra sempre molhada cheirava bom toda a vida e fazia o mato crescer cada hora. Cigarra gritava de contente. Formiga andava pra todo o lado. E o Vítor ficava horas a fio de olho comprido pras árvores: tudo tapado de folha nova e de flor roxa, amarela e branca. Ele só largava de namorar árvore pra olhar o musgo que tapava um caminho, ou pra ver uma florzinha rasteira que no inverno que sumia do chão e que agora aprecia outra vez. Ou então pra espiar um sabiá cantando, ou pra ficar pensando num bando de periquitos passando, ó coisa boa de ver!

E então, na terça-feira de manhã, o Vítor saiu pra escola cedinho e pegou o caminho mais comprido, só pra ir curtindo mais comprido tanto cheiro gostoso e tanto canto no ouvido e tanta coisa pra ir vendo, querendo lembrar ‘quem foi que me ensinou a gostar assim do mato: ou quem sabe isso é coisa que tatu já nasce gostando?”. E lá foi ele pensando,sem nem poder imaginar o que que ia acontecer na aula de português.

Dez horas aula de português. O Vítor muito bem lá no lugar dele.”

Fragmento de O Sofá Estampado, Lygia Bojunga, José Olympio Editora, RJ, 1996.

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