quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA


“Abriu a janela que dava para o jardim. Ali começavam os pinheiros que cercavam a casa. Vinha deles o cheiro vegetal, úmido, aquilo que ela chamava de cheiro de Itaipava. `As vezes, em Milão, ela sentia aquele cheiro que vinha de dentro dela – era a forma serena de se lembrar de Augusto.

Ela esperara quinze anos para que os pinheiros crescessem. Não tinha pressa então. Confiava em si mesmo, em seu ritmo. César vai a bordo! E os remos voltavam a funcionar. Os pinheiros cresceram realmente. Ela também. Começara a se libertar do homem que se tornara poderoso para ela, do homem que, na noite de Nápoles, aparecera súbito, demônio brotado do chão. E como um demônio, a transformara em Mona. E a sequestrara. E ensinara-lhe a história do mundo.

Cumprida a tarefa, tanto ele como ela nada tinham a fazer juntos – por isso ela aspirava o cheiro forte vindo dos pinheiros, cheiro de noite, cheiro dele. Não fora convidada para ir a Itaipava, muito menos para dormir na casa que também fora dela. Depois de três anos de ausência, ela não se sentia uma estranha, mas uma intrusa.”

Fragmento de A Casa do Poeta Trágico, Carlos Heitor Cony, Companhia das Letras, SP, 1997.

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