sábado, 5 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: Literatura brasileira

“Nasci e me criei num estábulo, a cento e dois quilômetros de Porto Alegre, lugarejo chamado Fontes, com uma pequena e triste cachoeira a derramar-se dia  enoite, sem descanso. Era eu mais um cachorro doido, dessas coisas difíceis de esquecer. Um menino triste com seu cachorro doido, correndo como quem corre com a força da vida, do vento, meio malandrinho e meio aéreo. Amadureci em porto Alegre, na faculdade de medicina, quando aprendi o gosto do vinho e a verdade do sexo. Eu, um menino e seu cachorro, de repente um súbito jovem e estudante, vivendo a futura profissão na inocência de um cego amor, sem esperar as ciladas que aconteceriam mais tarde – e foram tantas, tantas as ciladas que eu sou mais fraco hoje que o menino que fui. É pelo menos como me sinto agora nesse jardim de casa, no silencioso bairro Moinhos de Vento, enquanto lá dentro a minha mulher entoa árias, exaltada com nossa iminente separação. Pássaros acompanham em volta e eu sou triste. Enganado pela medicina, psiquiatra do centenário hospício da cidade. Os loucos no começo respeitavam-me, obedeciam a um breve e penetrante olhar. Mas com poucos anos de carreira deparei-me com um louco absolutamente são. Respondia-me tudo com a língua fiada pela mais mordaz ironia, o que levou seus colegas e descendentes de hospício a temerem perigosamente os meus apetrechos médicos. E  até hoje relutam a qualquer diálogo, fecham-se como animais possuídos por um transe do silêncio, adormecem em pleno almoço. Um dia sentei-me com eles à mesa e um deles me esbofeteou. Eu não tive coragem de puni-lo. Segurei-lhe, forte, o braço, e ele cerrou os olhos, se negando.”

Fragmento de A minha passagem, in Romances e Contos reunidos, João Gilberto Noll, Companhia das Letras, SP, 1997

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