domingo, 6 de janeiro de 2013

SÉRIE BITS: LITERATURA BRASILEIRA

 
 “Dentro do escuro, no ônibus interestadual, eu pensava em tudo o que o Terceirodomundo me havia dito, o idiota. Depois de nem sei quantos dias, eu saíra de casa e tinha ido à academia. O Terceirodomundo estava lá. Já não fazia mais ginástica, só contava bazófia do tempo em que disputava campeonato, e quando me viu foi logo dizendo: você está magro, amarelo, menino, você precisa castigar o corpo, malhar, malhar; ora, eu estou ficando velho, dizem que estou acabado, mas eu sei das coisas, você está sofrendo, você está gamado por uma mulher, toma cuidado que isso pode te destruir como destruiu meu irmão, que era florista e que um dia, quando tinha  a tua idade, deu um tiro no peito no portão da casa da tal dona que era casada e morava em Petrópolis. Cala a boca, não negue, eu leio na sua cara, igual à do meu irmão, você pensa que eu cheguei a campeão assim sem mais nem menos? Estudei ioga, sou espiritualista e também socialista (mas isso em questões de política). Eu leio na cara dos outros! Você está gamado, mas guarda o que eu te digo, vagabunda nenhuma vale uma insônia, uma humilhação, um tiro no peito; na vida o homem só precisa de uma coisa, proteína, proteína! Tudo isso ele ia me dizendo, o Terceirodomundo, enquanto arregalava os olhos, trincava os dentes, dava socos nas mãos e palmadas na enorme barriga. Como é o nome dela, perguntou ele. Eu: Francisca. Ele: f, um, r, dois, a,três, n, quatro, c, cinco, i, seis, s, sete, c, oito, a, nove – nove letras! Fuja dessa mulher, é desgraça na certa.”

Fragmento de O inimigo, in 64 contos de Rubem Fonseca, Companhia das Letras, SP, 2004.

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