quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

SÉRIE BITS: POESIA BRASILEIRA



 
IMITAÇÃO DA ÁGUA
João Cabral de Melo Neto
De flanco sobre o lençol,
Paisagem já não tão marinha,
A uma onda deitada,
Na praia, te parecias.

Uma onda que parava
Ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
Seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
Naquela hora precisa
Em que a pálpebra da onda
Cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parara
Ao dobrar-se, interrompida,
Que imóvel se interrompesse
 no alto de sua crista

E se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
Mas que ao se fazer montanha
Continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
Na praia cama, finita,
A natureza sem fim
Do mar de que participa,

E em sua imobilidade,
Que precária se adivinha,
O dom de se derramar
que as águas faz femininas

Mais o clima de águas fundas,
A intimidade sombria
E certo abraçar completo
Que dos líquidos copias.

In 100 Poemas Essenciais da Língua Portuguesa, Editora Leitura, BH, 2004.

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