segunda-feira, 1 de abril de 2013

LIVRO DO MÊS 1: Edgar Morin



  
“O desenvolvimento é uma fórmula-padrão que ignora os contextos humanos e culturais. Ele se aplica de forma indiferenciada a sociedades e a culturas muito diversas, sem levar em conta suas singularidades, seus saberes e fazeres, suas artes de viver, presentes em populações das quais se denuncia o analfabetismo sem perceber as riquezas de suas culturas orais tradicionais. Ele constitui um verdadeiro etnocídio para as pequenas populações.
Na verdade, o desenvolvimento oferece o modelo ocidental como arquétipo universal para o planeta. Ele supõe que as sociedades ocidentais constituem a finalidade da história humana. Produto do sociocentrismo ocidental, ele é também o motor de uma ocidentalização desenfreada. De fato, se ele necessariamente não traz para o resto do mundo o que a civilização ocidental tem de positivo (direitos humanos, liberdades, democracia), inevitavelmente transfere seus vícios.
O desenvolvimento que pretenderia ser solução ignora que as sociedades ocidentais estão em crise exatamente por causa de seu desenvolvimento. Na verdade, esse desenvolvimento produziu um subdesenvolvimento intelectual, psíquico e moral. Intelectual, porque, ao nos ensinar a dissociar tudo, a formação disciplinar que nós, ocidentais, recebemos nos faz perder a aptidão de religar e, com isso, a de pensar os problemas fundamentais e globais. Psíquica, porque somos dominados por uma lógica puramente econômica que não vê como perspectiva política senão o crescimento e o desenvolvimento, e porque somos obrigados a considerar tudo em termos quantitativos e materiais. Moral, porque por toda parte o egocentrismo predomina sobre a solidariedade. Além disso, a hiperespecialização, o hiperindividualismo, a perda das solidariedades conduzem ao mal-estar, inclusive no próprio cerne do conforto material.”

In A VIA para o futuro da humanidade, Edgar Morin, Bertrand Brasil, RJ, 2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário