sábado, 6 de abril de 2013

LIVRO DO MÊS 4: Lacan – Escritos – O seminário sobre a carta roubada


“É porque Freud não cede sobre o original de sua experiência, que o vemos obrigado a aí evocar um elemento que a governa do além da vida – e que ele chama de instinto de morte.

A indicação que Freud dá aqui a seus seguidores que se afirmam como tais, não pode escandalizar senão aqueles nos quais o sono da razão se entretém, segundo a fórmula lapidar de Goya, graças aos monstros que ele engendra.

Pois por não declinar o seu hábito, Freud somente nos entrega sua noção acompanhada de um exemplo que aqui vai pôr a nu, de maneira luminosa a formalização fundamental que ela designa.

Esse jogo que a criança exerce fazendo desaparecer de sua vista, para aí trazê-lo novamente, em seguida obliterá-lo de novo, um objeto, de resto indiferente em sua natureza, apesar de modular essa alternância com sílabas distintivas – esse jogo, diremos, manifesta em seus traços radicais a determinação que o animal humano recebe da ordem simbólica.

O homem, literalmente, dedica seu tempo a desdobrar a alternativa estrutural em que a presença e a ausência toma uma da outra seu apelo. É no momento de sua conjunção essencial, e por assim dizer, no ponto zero do desejo, que o objeto humano cai sob o golpe da dificuldade, que, anulando sua propriedade natural, o subjuga doravante às condições do símbolo.

Para dizer a verdade, não há lá mais do que uma amostra luminosa da entrada do indivíduo numa ordem cuja massa o suporta e o acolhe sob a forma da linguagem, e sobreimpõe, na diacronia assim como na sincronia, a determinação do significante à do significado.

Pode-se apreender em sua emergência mesma essa sobredeterminação que é a única, da qual se trata na apercepção freudiana da função simbólica.”

In Escritos, Jacques Lacan, Escritos, Perspectiva,  SP, 2011

p.s: atenção, grupo de estudos.
lacan

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