sábado, 15 de junho de 2013

Para o grupo de estudos: Freud e Kafka: um estudo sobre o estranho.



PRIMEIRA PARTE:


Freud e Kafka: um estudo sobre o estranho.


 ‘Queridos pais, eu sempre os amei!’ A relação ‘pais e filhos’ é um fio condutor para a leitura da obra de Kafka. No complexo vínculo com a autoridade encontramos uma das razões do enigmático fascínio dos seus textos. Ao longo do trabalho literário de Kafka descobrimos algumas versões da relação ‘pai e filho’ e da relação com os herdeiros da figura paterna, por exemplo, com a lei, imposta e/ou guardada pelo Estado, como no romance ‘O PROCESSO’, de 1914.

Nesse mesmo ano, Kafka escreveu o conto ‘NA COLÔNIA PENAL’, onde se encontra exatamente a transição da relação com o pai em particular para o vínculo com o poder do Estado.

É possível traçar o seguinte caminho: no conto ‘O VEREDICTO’, de 1912, a trama está concentrada na relação pai e filho; em ‘A METAMORFOSE’, o enredo alcança o conjunto da família e ‘NA COLÔNIA PENAL’, vemos o drama assumir o universo do sistema judiciário do Estado.

Em Kafka, as relações sociais exibem sua origem nas relações pessoais, às quais retornam, como num refluxo que, por um lado, estabelece um círculo vicioso, mórbido, repressivo, alienante: da opressão familiar à opressão do Estado e dessa, de volta à opressão familiar.

Por outro lado, a própria obra kafkaniana demonstra que no esforço da narração está uma possibilidade da reinvenção das relações ou, em outras palavras, a narrativa de determinado fluxo afetivo modifica o seu curso. Um retrospecto literário de experiências afetivas não é apenas uma viagem de volta; é o desenho de outros contornos, é recriação das próprias experiências. A arte e, por excelência, a literatura, reinventa os vínculos; mobiliza as ligações pessoais produzindo um novo objeto; repercutindo, portanto, nas relações político-sociais.

Em sua correspondência pessoal Kafka fala de uma ligação ‘secreta’ entre ‘O VEREDICTO’ e ‘NA COLÔNIA PENAL’. Diz que os dois textos são mediados pelo conto ‘A METAMORFOSE’, e que, a princípio, quisera compor uma trilogia sob o título ‘PUNIÇÕES’. Antes, havia pensado em outra trilogia chamada ‘FILHOS’, composta por ‘O VEREDICTO’, ‘A METAMORFOSE’ e ‘O FOGUISTA’. Kafka pôs ‘PUNIÇÕES’ onde havia pensado ‘FILHOS’. Depois desistiu de ambos, mas confirmou que a mediação de ‘A METAMORFOSE’ entre ‘O VEREDICTO’ e ‘NA COLÔNIA PENAL’ fazia-se necessária, impedindo que ‘duas cabeças batessem violentamente uma contra a outra’. 

Deve-se ressaltar também que, segundo o próprio Kafka, a escrita de ‘O VEREDICTO’ foi o ponto inaugural de sua literatura; momento de grande alegria quando teria descoberto a fórmula para escrever ficção: “só assim se pode escrever, só num contexto como este, com uma abertura tão completa do corpo e da alma”.

A sentença a que se refere o título – O VEREDICTO - é uma sentença de morte ditada pelo pai ao filho no desfecho de um denso, complexo e sombrio debate. O filho corre para cumprir a determinação paterna (‘correndo como se fosse por cima de uma superfície obliqua’) proferindo as últimas palavras, à maneira do último desejo: “Queridos pais, eu sempre os amei”.

Todo o conto está no cenário sombrio de uma atmosfera dicotômica de mútuo amor e ódio. O gênio de Kafka faz com que esse afeto ambivalente e intenso perpasse pelos personagens que vão circulando nos lugares de pai e filho. Vejamos:

Um amigo de Georg viaja para o estrangeiro em busca de paz e crescimento profissional, mas não obtém sucesso. Entretanto, depois da partida do amigo e da morte da mãe, Georg, que ficara em casa, progride tanto nos negócios e como na vida amorosa.

Surge então um dilema: como contar ao amigo que tudo estava caminhando bem? Como contar o próprio sucesso a quem fracassou? Esse dilema provoca-lhe tamanha angústia que, inusitadamente, Georg pede conselhos com o pai. Inusitadamente, porque, embora vivam sob o mesmo teto, são indiferentes, distantes e frios um para com o outro. É o pedido de ajuda para contar sobre próprio êxito que provoca a discussão sombria; um debate feito de acusações ambivalentes e que só termina com a declaração paterna:

“- Agora, portanto, você sabe o que existia além de você, até aqui sabia apenas de si mesmo! Na verdade você era uma criança inocente, mas, mais verdadeiramente ainda, você era uma pessoa diabólica! Por isso saiba: eu o condeno à morte por afogamento”.



Franz Kafka nasceu em Praga em 1883 e morreu aos quarenta anos vítima de tuberculose. A partir dos trinta e quatro anos sofreu repetidas crises de hemoptise; podemos dizer que, muitas vezes, sentiu que se afogava no próprio sangue. Viveu alternando períodos de tratamento médico em sanatórios com períodos de trabalho burocrático como advogado de seguros no serviço público. Kafka dizia sempre que só a literatura não o aborrecia. O conflito que manteve com o pai, por toda a vida, era causado, em especial, pelo fato deste não reconhecer dignidade na carreira de escritor.

Aqui, é inevitável lembrar-nos da estarrecedora máquina de execução de morte do conto ‘NA COLÔNIA PENAL’. Descrita nos mínimos detalhes, a sentença é executada através de uma máquina que escreve no corpo do condenado, literalmente, a decisão ditada pelo diretor do presídio, sem que haja necessidade de um julgamento.

Durante uma das estadias no sanatório, Kafka iniciou a famosa ‘CARTA AO PAI’, uma narrativa corajosa e emocionante do sentimento de fracasso, de esmagamento, de terror, diante de um pai que se lhe assomava gigantesco.

Kafka nunca se casou; foi noivo da mesma mulher duas vezes, Felice Bauer, a quem dedicou o conto ‘O VEREDICTO’. Durante toda a vida esteve envolvido com ela, debatendo-se na dúvida entre realizar ou não o casamento. No tempo em que estiveram separados, enquanto buscava meios para uma reaproximação, surgem nos diários de Kafka, fantasias de castigo com aparelhos de tortura, nas quais ele se auto-executa.

No artigo de 1919, O ESTRANHO, Freud desenvolveu um conceito do sentimento de estranheza, definindo-o como ‘sentimento do desconhecido familiar’, uma vivência confusa, misto de fantástico, misterioso, sinistro e recorrente.  “O estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, de há muito familiar”. Para Freud, é nesse cenário de estranheza, marcado pela ambivalência de afetos, que se dão os movimentos próprios do processo de constituição da identidade do sujeito.

A obra de Kafka estampa o quanto pode ser árduo esse caminho. Sua obra ilustra o processo de formação da identidade como um caminhar agônico, um jogo com o espelho, com o duplo, numa atmosfera de franca estranheza, tal como Freud apontou.

O artigo ‘O ESTRANHO’, começa com comentários sobre Estética ‘enquanto teoria da beleza ou teoria das qualidades do sentir’ e termina com a afirmação de que ‘as qualidades do sentir enquanto impulsos emocionais dominados’ não interessam ao psicanalista. A este importam os impulsos emocionais não dominados e os caminhos percorridos para a sua educação. Por isso, o tema do ‘estranho’ é, para Freud, a vertente da Estética que interessa particularmente ao psicanlista.

Vale destacar uma diferença interessante do método freudiano nesse trabalho.  Aqui, ele parte da linguística para depois procurar na clínica as comprovações de suas hipóteses, isto é, uma inversão do seu método consagrado: partir sempre da clínica. Freud foi antes de tudo um exímio clínico; um ouvinte espetacular. Partia daquilo que ‘ouvia como se nunca o tivesse ouvido antes’, para só depois construir teoria. Nesse trabalho, ‘O ESTRANHO’, ele fez o contrário.

A palavra alemã de partida é ‘unheimlich’, oposto de ‘heimlich’, cujo primeiro significado é ‘doméstico’. Depois de apurada pesquisa, Freud destaca o sentido amplo da palavra ‘heimlich’: ‘íntimo, amigavelmente confortável; desfrutar de um contentamento tranquilo etc., despertando uma sensação de repouso agradável e de segurança, como a de alguém entre as quatro paredes da sua casa’.

Em ‘O VEREDICTO’, Georg debate-se em dúvidas sobre a possibilidade de uma ‘comunicação real’ com o amigo que buscou refúgio fora de casa; a dúvida é precisamente se deveria recordar ou não ao amigo, o desconforto e a insegurança doméstica. É possível dizer a ele que volte? É possível dizer que não volte? De fato, a ambivalência sobre a verdadeira circunstância do ambiente doméstico, a dúvida sobre a possibilidade de abandonar a casa para sempre, a incerteza da possibilidade de permanecer para sempre em casa, permeia o conto:

“Mas isso não significava outra coisa senão estar, ao mesmo tempo, lhe dizendo, de uma maneira tanto mais ofensiva quanto maior a consideração, que suas tentativas até agora tinham malogrado; que ele devia finalmente desistir delas, regressar e permitir que todos o olhassem com espanto, como a alguém para sempre de volta, que só os seus amigos sabiam um pouco das coisas e que ele era uma criança crescida, pura e simplesmente necessitada de seguir os companheiros bem sucedidos que haviam permanecido em casa?”

A seguir, Freud pesquisa outro uso comum da palavra ‘heimlich’, a saber: ‘escondido’, ‘velado’, ‘sonegado’, ‘ficar às costas’. Isto é, o acréscimo do significado ‘furtivo’ ao significado ‘doméstico’. Continuando a investigação, ele estuda os vocábulos compostos com o prefixo de negação ‘un’, que acrescenta ao primeiro vocábulo o significado de ‘misterioso, sobrenatural, daquilo que desperta um extremo temor’. Portanto, afinal, ‘heimlich’ é a vivência doméstica colorida de mistério, temor e desconfiança.

A formação de palavra através da conexão de um elemento de negação introduz a ambivalência no âmago da palavra. Aqui, Freud encontra em Schelling um sentido definitivo para ‘unheimlich’: ‘é o nome de tudo que devia ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz’.

Segue-se a primeira conclusão de Freud: ‘O que mais nos interessa nesse longo excerto é descobrir que entre os seus diferentes matizes de significado a palavra ‘heimlich’ exibe um que é idêntico ao seu oposto, ‘unheimlich’. Portanto, o que é ‘heimlich’, vem a ser ‘unheimlich’.

A partir daqui, Freud conclui que o sentido de ‘doméstico’ expande-se para a ideia de ‘algo afastado dos olhos’, ‘algo que se deve ocultar’. Esse sentimento, que traz a ambivalência em seu núcleo, traduziu-se por ‘estranho’, em português.

O artigo de Freud continua adentrando a literatura, especialmente a obra de ‘Jentsch’, estudioso de Estética. Para esse, o sentimento de estranheza na literatura é criado pela manobra de deixar o leitor na dúvida quanto ao estatuto de humanidade do personagem. Quanto mais tempo o leitor ficar sem saber se o personagem é um autômato ou um humano, maior será o sentimento de estranheza experimentado. (continua)

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