domingo, 16 de junho de 2013

Para o grupo de estudos: Freud e Kafka: um estudo sobre o estranho.

SEGUNDA PARTE:


Hoffmann é o autor que mais usou desse artifício em suas criações. Freud estuda o seu conto ‘O HOMEM DE AREIA’, e descobre no texto os caminhos da identificação dentro de uma atmosfera de estranheza. Percurso sinalizado por olhares, ambivalências e perdas.
O conto de Hoffmann também termina com o suicídio do protagonista. Vamos citar integralmente o trecho, no qual podemos destacar os elementos ressaltados por Freud e as coincidências com o conto de Kafka:
‘Lotário desceu correndo com a irmã desfalecida nos braços. Estava salva. Agora Natanael corria pelo terraço dando saltos no ar e gritando: ‘gira, roda de foto, gira, roda de fogo’. Pessoas acorreram ao ouvir a gritaria selvagem, entre elas destacava-se, gigantesco, o advogado Coppelius, que acabara de chegar à cidade e fora diretamente para o mercado. As pessoas queriam subir para dominar o jovem enfurecido, mas Coppelius deu uma gargalhada e disse: ah! ah! Esperem que logo  ele desce sozinho!, e olhava para cima, como os outros. De repente, Natanael deteve-se como que estarrecido, debruçou-se sobre a balaustrada, avistou Coppelius, e com o grito estridente: ‘ah! Olhos belli, olhos belli’, atirou-se para baixo’.  (grifos meus)
A importância dada ao olhar no cenário do sentimento do estranho revela para Freud que na base desse sentimento está o temor à castração, o qual se manifesta na criança, primeiramente, pelo medo de perder os olhos. Eis o texto de Freud:
“Podemos tentar, com fundamento racionalista, negar que os temores em relação aos olhos derivem do medo da castração, e argumentar que é muito natural que um órgão tão precioso como o olho deva ser guardado por um medo proporcional. Na verdade, podemos ir mais além e dizer que o próprio medo da castração não contém outro significado, nem outro segredo mais profundo do que um justificável medo de natureza racional.
Esse ponto de vista, porém, não considera adequadamente a relação substitutiva entre os olhos e o órgão masculino, que se verifica existir nos sonhos, mitos e fantasias; nem dissipa a impressão de que a ameaça de ser castrado provoca de modo especial uma emoção particularmente violenta e obscura, e de que é essa emoção que dá, antes de tudo, intenso colorido à ideia de perder outros órgãos. Todas as demais dúvidas são afastadas quando sabemos, pela análise de pacientes neuróticos, dos detalhes do seu ‘complexo de castração’ e compreendemos a enorme importância desse complexo na vida mental de tais pacientes.”
No conto de Hoffmann, a ansiedade do personagem está ligada à morte do pai e ao ‘homem de areia’ que, a princípio, é o bicho papão: ‘... então não sabes? É um homem mau que aparece para as crianças que não querem ir para a cama e joga punhados de areia em seus olhos até que estes saltem das órbitas, cobertos de sangue; então ele os guarda em um saco e os leva para a Lua, onde seus filhos os comem; é lá que eles moram, em um ninho, têm bico adunco de coruja e o usam para arrancar os olhos das crianças travessas’. No segundo momento, o ‘homem de areia’ é projetado num amigo do pai, responsabilizado pela morte desse e, seguidamente, responsabilizado por todos os males que o personagem vem a padecer. É o homem aterrorizante, o grande fantasma perturbador do amor, culpado pela separação dos namorados.
 Freud conclui: “Na história, elementos como estes e muitos outros parecem arbitrários e sem sentido, na medida em que negarmos toda ligação entre os medos relacionados com os olhos e com a castração. Mas tornam-se inteligíveis tão logo substituímos o homem de areia pelo pai temido, de cujas mãos é esperada a castração.”
Agora, Freud deixa o texto e leva a análise para o autor, E. T. A. Hoffmann. “Hoffmann foi filho de um casamento infeliz. Quando tinha três anos de idade, o pai abandonou a pequena família e jamais voltou a unir-se a ela. De acordo com Grisebch, em sua introdução biográfica às obras de Hoffmann, a relação do escritor com o pai foi sempre assunto dos mais delicados para aquele”. Outra coincidência com Kafka: permanente conflito com o pai.
A evolução do ‘complexo de castração’ passa pela constituição do fenômeno conhecido como ‘duplo’. Esse interessante personagem, o duplo, é frequentemente encontrado, sob diferentes formas e graus, em histórias de ficção, em lendas e mitos, mas, especialmente, na chamada literatura fantástica. Os personagens que se originam na ideia do ‘duplo’ guardam muitas semelhanças: mudam seus sentimentos de maneira súbita e imotivada, trocam de lugar com outros personagens de modo aparentemente aleatório e são assombrados por dúvidas que os levam à repetição dos mesmos atos. Descrição bastante correta para a obra de Kafka.
Inicialmente o ‘duplo’ aparece com um caráter defensivo; é uma proteção contra a destruição do ego, ‘uma enérgica negação do poder da morte’, diz Freud. É o amor próprio, ou seja, o narcisismo primário, que exige proteção e se defende do medo da morte através do ‘duplo’. A linguagem dos sonhos cria uma proteção ao temor da castração duplicando, ou multiplicando, um símbolo fálico. Assim fica evidente que, no inconsciente, morte e castração são identificadas. Aqui podemos lembrar também a importantíssima escolha do objeto transicional (nos termos de Winnicott) para a proteção narcísica. O surgimento desse objeto é a primeira aparição do ‘duplo’ enquanto proteção; enquanto objeto guardião do ego.
Superada a etapa do narcisismo primário, o fenômeno do ‘duplo’, em si mesmo ambivalente, começa a exibir a outra face, a face de ‘estranho anunciador da morte’. Afinal, de fato, essa é a sua verdadeira origem, ou seja, o medo da castração.
E finalmente, num terceiro momento, o fenômeno do ‘duplo’ se estabelece enquanto instância psíquica. Observa Freud:
“A ideia de ‘duplo’ desenvolver-se-á juntamente com os estágios posteriores do ego e poderá ligar-se especificamente a uma atividade especial que surge no ego, que o observará, vigiará e criticará, atividade chamada consciência”.
Esse domínio – consciência - destaca-se na estrutura do aparelho psíquico como atividade autocrítica. Fórum herdeiro do narcisismo dos primeiros anos, a consciência autocrítica carrega  as experiências desses primórdios.
A repetição compulsiva é o outro elemento que compõe o cenário da experiência de estranheza. Falamos aqui do ‘permanente retorno do mesmo’, elemento natural de tudo aquilo que é instintivo e inconsciente, como Freud explicou. Nesse ponto, Freud parece ter bebido diretamente em Nietzsche, pois em ‘ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER’, publicado um ano depois de ‘O ESTRANHO’, ele coloca a frase “perpétua recorrência da mesma coisa” entre aspas. Por isso, dizemos que a ideia central de ‘Além do princípio do prazer’, ideia de um funcionamento psíquico a partir da pulsão de morte e não a partir do princípio do prazer, já se apresenta no artigo de 1919. Veja-se:
“Pois é possível reconhecer, na mente inconsciente, a predominância de uma ‘compulsão à repetição’ procedente dos impulsos instintivos e, provavelmente, inerente à própria natureza dos instintos – uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio de prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco, e, ainda mais, compulsão muito claramente expressa nos impulsos das crianças pequenas. Uma compulsão que é responsável, também, por uma parte do rumo tomado pelas análises de pacientes neuróticos. Todas essas considerações preparam-nos para a descoberta de que, o que quer que nos lembre esta íntima ‘compulsão à repetição’, é percebido como estranho’.
A análise depara-se frequentemente com vivências compostas por ‘maus pressentimentos’, ‘perceber-se sensitivo’ e ‘medo do mau olhado’. Esses fenômenos resultam, segundo Freud, de uma projeção dos sentimentos experimentados por ‘todo aquele que possui algo ao mesmo tempo frágil e valioso’. Noutras palavras, quem se percebe dono de ‘algo frágil e valioso’ sente medo de perdê-lo e supõe que será roubado por ‘alguém mau e carente’: um invejoso. A vivência de ‘mau olhado e maus pressentimentos’ é, mais uma vez, uma experiência de estranheza.
Uma das resultantes dessa experiência é a crença na onipotência dos pensamentos, uma certeza que dá origem à concepção animista do universo. O animismo é o universo das vivências do estranho, da ambivalência e da repetição. O universo do poder do outro. Segundo Freud, a ideia de um mundo povoado por espíritos é uma ideia defensiva que vem de uma compensatória supervalorização do narcisismo. Os espíritos que povoam o universo seriam projeções dos temores e valores do próprio sujeito. Trata-se de uma projeção defensiva; projeção dos sentimentos de maldade e raiva que emergem simultaneamente com a percepção da própria fragilidade.
Uma consciência da força – consciência de si mesmo - só advém da elaboração do medo da perda, e da elaboração da perda em si mesma (e em si mesmo). A autoestima, avaliação da própria potência, depende, portanto, da elaboração do medo da castração e da morte, pois, como se viu, no inconsciente, castração e morte coincidem.
Se o terreno em que florescem tais vivências é o narcisismo, algum estágio anímico é natural ao sujeito. E os resíduos desse estágio manifestam-se, ao longo da vida, repetidamente, sob a forma do sentimento de estranheza. São as expressões do inconsciente; noutras palavras, são retornos do reprimido.
Diz Freud: ‘... se é essa, na verdade, a natureza do estranho, pode-se compreender por que o uso linguístico estendeu ‘das heimliche’ (homely – doméstico, familiar) para o seu oposto, ‘das unheimiliche’, pois esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta  através do processo da repressão’.
A compreensão freudiana da repressão das feridas narcísicas e de sua revivência como sentimento de estranheza – experiência do fantástico, ao mesmo tempo atraente e aterrorizante - explica bem a definição de Schiller: ‘estranho é aquilo que deveria ter permanecido oculto, mas veio à luz’.


Em ‘O VEREDICTO’, Kafka cria uma atmosfera sombria e ambivalente, onde dúvidas atormentam o personagem durante todo o tempo; ou melhor, atormentam os personagens, pois há, ao longo da narrativa, um processo circular de fragmentação e fusão dos papeis. O enredo aparece como um jogo de espelhos em que as imagens misturam-se e quebram-se indefinidamente. São ‘duplos’ aprisionados num labirinto, cuja saída final é o suicídio.
A história surge de um debate, aparentemente banal, entre pai e filho, iniciado pelo desejo do filho de casar-se e ter um negócio próprio. Isso se passa depois da morte da mãe.  O filho tem medo da reação do pai ao seu desejo de sair de casa; seu pai é um desconhecido. O medo do pai logo se estende para medo do amigo que viajou para o estrangeiro em busca da prosperidade. Nada é dito para explicar o temor ao pai. Sabe-se apenas que ele é temido e, a se considerar o desfecho, temido por boas razões. Afinal a conversa, a princípio um pedido de conselho, termina com o cumprimento automático do mandado do pai: ‘eu o condeno à morte’, e o filho imediatamente se mata. (continua)


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