segunda-feira, 17 de junho de 2013

Para o grupo de estudos: Freud e Kafka: um estudo sobre o estranho.

Terceira parte: 

 Superada a etapa narcísica, a experiência de castração integra-se à constituição do sujeito. Melhor dizendo, é a partir da integração da experiência de castração que se constitui o sujeito (sujeito barrado, ciente da lei, da incompletude, sujeito do conflito, sujeito da linguagem, sujeito que introjetou o nome-do-pai, sujeito que coloca pontuação ao grande Outro, etc.).

Melhor ainda, superado o narcisismo, a morte anunciada no segundo tempo da experiência do ‘duplo’, formaliza-se enquanto instância psíquica: seja pela morte simbólica do pai, que abre lugar no mundo para o filho, seja pela morte simbólica do filho, obedientemente afogado na palavra do pai.

A evolução do fenômeno do ‘duplo’ - a princípio garantia de proteção e vida e, posteriormente, anunciador da morte - pode ser bem percebida na leitura de ‘O VEREDICTO’.

No começo da história, o querido amigo de Georg refugia-se no estrangeiro: escapando de casa está protegido. É o primeiro tempo do duplo – um objeto amigo – e por isso, Georg, que ficou em casa, pode crescer. Encontra uma namorada, fica noivo e os negócios progridem. Mas, em seguida, o amigo fracassa lá no estrangeiro, e o sucesso de Georg sucumbe à dúvida. Como comunicar o ‘próprio êxito’ ao amigo? Estranhíssima dúvida: não se trata de um amigo? Portanto, não deveria ficar feliz com a felicidade de seu amigo? Ou ficaria com inveja? Ou se sentiria ultrajado? O uso da expressão ‘próprio êxito’ – textualmente – revela a ambiguidade entre Georg e o amigo. O fato é que a angústia de Georg sobre o futuro de uma feliz relação de amizade leva-o a pedir ajuda ao pai. Logo para o pai, um desconhecido. Sim, mas a quem mais?

Ao acercar-se do pai e expor sua angústia – ‘o amigo pode ofender-se com minha felicidade? Mas se é meu amigo poderia ficar feliz comigo?’ – vemos que Georg aproxima-se como quem consulta um oráculo. A emoção que o domina é assustadora – ‘ele ainda é um gigante’. A reação do pai não tarda. Começa com autodeploração e deságua em acusações ao filho. Sente-se um velho falido, pai de um trapaceiro, pois não acredita que haja amigo algum. Eis outro momento em que Kafka nos deixa em dúvida sobre a realidade da existência do amigo; esse poderia ser uma fantasia de Georg, como, a princípio, o pai sugere. Em seguida, a explosão emocional do pai leva-o ao desmaio. Então, Georg sente piedade e toda a preocupação com os sentimentos do amigo é, mais uma vez, transferida para o pai. Arrasado pela queda do gigante, quer socorrê-lo: ‘Vamos deixar de lado os amigos. Para mim, mil amigos não substituiriam meu pai’.

Agora, chegamos ao auge da história onde se revela toda a ambivalência da relação pai/filho. Georg carrega o pai para colocá-lo na cama enquanto se culpa por não ter cuidado dele devidamente. O pai agarra-se desesperadamente ao filho segurando-o pela corrente do relógio. A visão do pai agarrando o seu relógio causa, em Georg, um exasperante sentimento de repulsa. Ao ser colocado na cama e coberto pelo filho, o pai explode mais uma vez. Grita furiosamente que sua força, ‘ainda que a última’, será sempre maior que a força do filho. E acrescenta, inesperadamente, que aquele que partira para o estrangeiro é um amigo íntimo, ‘um verdadeiro filho querido’, diferente deste que ficou em casa, que é um traidor, que quer se casar e quer abandonar um velho acabado. Fica evidente a situação de ‘duplo’ entre Georg e o amigo que viajou. O pai esbraveja que não admitirá a saída de Georg, que não permitirá que o amigo que está no estrangeiro seja vencido. ‘Mas o seu amigo não foi atraiçoado! Eu era o seu representante aqui no lugar’. 



Agora, o ‘duplo’ reaparece na relação pai/filho e estampa o segundo momento do fenômeno: o de mensageiro da morte. O pai surge como arauto da morte. Onde deveria estar a saída do mortífero universo materno, onde deveria encontrar a ponte para os vários universos possíveis da vida, o filho encontra a morte na palavra absoluta do pai.

Mas Georg é forte; tenta resistir. Percebe-se perseguido e fica atento, sente medo e grita: ‘comediante!’; mas logo se arrepende, morde a língua, rende-se à fúria do pai que esbraveja: ‘sim, sem dúvida interpretei uma comédia! Comédia! Boa palavra! Que outro consolo restava ao velho pai viúvo? Diga – e no instante da resposta seja ainda o meu filho vivo – o que me restava, neste meu quarto dos fundos, perseguido pelos empregados desleais, velho até os ossos? E o meu filho caminhava triunfante pelo mundo, fechava negócios que eu tinha começado, dava cambalhotas de satisfação e passava diante do pai com o rosto circunspecto de um homem respeitável! Você acha que eu não o teria amado – eu, de quem você saiu?’.

Secretamente, em pensamentos, Georg deseja que ele caia e se arrebente. O pai continua a imprecação: diz-se possuído da força da mãe e da força do amigo que está no estrangeiro. É o único momento em que há uma referência à mãe; morta desde o princípio, ela está desaparecida na palavra do pai. Então, este conclui que estão todos arruinados: a mãe está morta, o amigo do estrangeiro é um fracassado e ele mesmo, um velho decrépito. Apenas Georg está escapando da ruína; ‘é para isso que tem olhos!’, conclui o pai.  Georg proclama horrorizado: ‘então, você ficou à minha espreita!’. Nesse momento, o pai profere a sentença que Georg corre a cumprir e, ‘deslizando sobre uma superfície oblíqua’, salta no rio, que passa em frente da sua casa, gritando: ‘queridos pais, eu sempre os amei!’.

Concluindo: no princípio, estamos todos presos à mãe. Somos meros prolongamentos dela; ela nos alimenta, aquece, protege e acalenta. Estamos no paraíso. Somos um, até que, no cumprimento adequado de sua função, a mãe desvia seu olhar – que, até então, era só nosso.



No desvio do olhar da mãe, encontramos o outro, a saída, a falta, a castração, a força, a linguagem e a liberdade.

No desvio do olhar da mãe, a chegada do pai. Poderoso arauto da vida ou da morte. E aí, num cenário de pura estranheza, o roteiro da constituição do sujeito.

Como explica Freud e Kafka conta.  

Magda Maria Campos Pinto


BIBLIOGRAFIA:

1.   E. T. A Hoffmann, O homem de areia, in Contos Fantásticos do século XIX escolhidos por Ítalo Calvino, Companhia das Letras, SP, 2004.

2.   Franz Kafka, O Veredicto/Na colônia Penal, Editora Brasiliense, SP, 1991.

3.   Franz Kafka, Cartas aos meus amigos, Nova Época Editorial Ltda., SP, 1999.

4.   Franz Kafka, Diários, Editora Itatiaia, BH, 2000.

5.   Franz Kafka, Carta ao meu Pai, Editora Hemus, S.P, 1970.

6.   Franz Kafka, A metamorfose, Companhia das Letras, SP, 1997.

7.   Franz Kafka, O processo, Editor Victor Civita, RJ, 1979.

8.   Sigmund Freud, O estranho, Edição Standard Brasileira, vol.XVII, Imago Editora Ltda., RJ, 1976.

9.   Sigmund Freud, Além do Princípio do Prazer, Edição Standard Brasileira, vol.XVIII, Imago Editora Ltda., RJ, 1976.

10.               Sigmund Freud, Sobre o narcisismo: uma introdução, Edição Standard Brasileira, vol.XIV, Imago Editora Ltda., RJ, 1976.

11.              Donald Winnicott, Da pediatria à Psicanálise, Imago Editora, Rj, 1978.



Nenhum comentário:

Postar um comentário