quarta-feira, 19 de junho de 2013

PRIMEIRAS REFLEXÕES SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES:


             Inicialmente, senti absoluta perplexidade, uma confusão: ‘o que está acontecendo?’ Ainda de início, mas com menor perplexidade, começo uma reflexão sobre as manifestações populares que tomaram as ruas do país (e, de forma nova e surpreendente, manifestações de brasileiros fora do país). Bom, penso que, a princípio, trata-se mesmo de demonstração da confusão e da desordem geral; condição que tem grande significado nesses tempos atuais. Há algum tempo, vivemos uma grande desordem, nos mais diversos sentidos.
           A partir da alegria e da grata surpresa de ver, depois de décadas de indiferença (só me lembro de pessoas nas ruas nesse país em 92, impeachment do Collor), o encontro de milhares de pessoas nas ruas, percebo que há uma grande dificuldade de formulação discursiva. E a partir daí, a minha reflexão toma um primeiro rumo.
        Há alguns anos, as pessoas estão isoladas, emudecidas e, já o dissemos em outros contextos, sedadas (por diversas condições que aqui não cabe repetir). Certamente, nessas condições é impossível o desenvolvimento de alguma discursividade consistente.
        Dissemos, pois, que o isolamento e falta de articulação discursiva são características básicas da geração que, hoje, chega à vida adulta (os nascidos a partir do começo dos anos 90). Trata-se da geração da internet (e toda a parafernália correlata, ou seja, a relação quase exclusiva com telas e botões), da medicalização da vida (substâncias de naturezas diversas surgiram como solução para as mais diversas circunstâncias da existência) e da competição desenfreada e absoluta por um mero posto de trabalho. (sim, a melhor promessa feita a essa geração foi apenas um trabalho bem remunerado).
      Enquanto isso, a geração anterior, que havia crescido e se constituído em lutas políticas, chegava ao poder e se assentava. Essa geração, me parece, feliz com a conquista básica da democracia, esqueceu-se de que ‘a vida não para’. O esquecimento da exigência fundamental de educação para o ser humano, é fatal.  Isso muito contribuiu para o isolamento do indivíduo, já citado acima.
       A alegria brasileira com a questão da COPA DE FUTEBOL E DEMAIS EVENTOS, revelou-se por demais artificial; gostamos muito de futebol e de festas (somos os melhores nisso e isso é bom) mas não somos idiotas; o espetáculo de bem estar geral revelou-se essencialmente falso.
         Juntando tudo, felizmente, deu nisso: rompeu-se a condição de indivíduos sedados, isolados, indiferentes e violentos.
        O ser vivo não suportará sedação, isolamento, violência e indiferença; essas são condições de morte.
         Para mim, essa é a primeira constatação. As manifestações dizem, primeiramente, que estamos vivos e queremos nos expressar. Ainda que não saibamos ainda como fazê-lo com clareza. Isso vale para todos; não há uma categoria, profissão, gênero, partido, etc. Somos todos nós.
       Isso faz sentido com características do movimento: não há uma bandeira partidária; são diversas e desarticuladas as palavras de ordem, são expressões de significados novos, são várias e vagas (e justas) as reivindicações: educação, saúde, honestidade, respeito... Precisamos aprender. Todos nós.
       Recuaram quanto ao preço do transporte público. Não bastará.
       Nesse momento, espero que esse movimento (que já merece ser celebrado por si mesmo) seja a primeira manifestação da reformulação do discurso, seja a construção expressiva da condição atual dos sujeitos: subjugados, desconsiderados, manipulados, emudecidos e sedados.
     Estou feliz. Estou vivendo uma revolução que eu temia não viver para ver: a revolução do sujeito isolado, do sujeito de vida reduzida à mera competição por um trabalho, do sujeito sem discurso e sem desejo.
       É um evento novo.
     Evento que irrompeu no Brasil, país que sempre considerei alma do mundo. Continuo pensando... E aprendendo. E torcendo: pelo Brasil, pelo brasileiro, e pela expansão da vida.
Magda Maria Campos Pinto 


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