quarta-feira, 31 de julho de 2013

UMA SEMANA COM BOCAGE 4



A UM VELHO MALDIZENTE


 Tu, maligno dragão, cruel harpia,
Monstro dos monstros, fúria dos infernos,
Que em vil murmuração, ralhos eternos
Estragas sem descanso a noite, e o dia:

 
Tu, que nas horas em que o mocho pia,
Caluniaste meus suspiros ternos,
Sacode a carga de noventa invernos
Nas descarnadas mãos da morte fria:

 
Cai de chofre no báratro profundo,
Cai nas entranhas da voraz fornalha,
Deixa em sossego o miserável mundo:

 
E entre a maldita, réproba canalha,
Lá bem longe de nós, lá bem no fundo,
Arde, murmura, amaldiçoa, e ralha.


terça-feira, 30 de julho de 2013

UMA SEMANA COM BOCAGE 3



GLOSANDO O MOTE: ‘DAS ALMAS GRANDES A NOBREZA É ESTA’

 Ser prole de varões assinalados,
Que nas asas da fama e da vitória
Ao templo foram da imortal Memória
Pendurar mil troféus ensanguentados:

 Ler seus nomes nas páginas gravados
D’alta epopéia, d’elegante história,
Não, não vos serve de esplendor, de glória,
Almas soberbas, corações inchados!
 
Ouvir com dor o miserável grito
De inocentes, que um bárbaro molesta,
Prezar o sábado, consolar o aflito;

 Prender teus vôos, ambição funesta,
Ter amor à virtude, ódio ao delito,
Das almas grandes a nobreza é esta.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

UMA SEMANA COM BOCAGE 2



NA SOLIDÃO DO CÁRCERE

 
Quando na rósea nuvem sobe o dia
De risos esmaltando a Natureza,
Bem que me aclare as sombras da tristeza
Um tempo sem-sabor me principia:

 
Quando por entre os véus da noite fria
A máquina celeste observo acesa,
De angústia, de terror a imagens presa
Começa a devorar-me a fantasia.

 
Por mais ardentes preces, que lhe faço,
Meus ais não ouve o númen sonolento,
Nem prende a minha dor com tênue laço:

 
No Inferno se me troca o pensamento;
Céus! Porque hei-de existir, porque, se passo
Dias de enjoo, e noites de tormento?


domingo, 28 de julho de 2013

UMA SEMANA COM BOCAGE 1



RETRATO PRÓPRIO

 Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de face, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
 
Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

 
Devoto incensador de mil deidades
(digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

 
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.


sábado, 27 de julho de 2013

FRANCISCO: UMA REFERÊNCIA

Com fé, ou sem fé, francisco é uma referência, sempre: 


Abraço,
Ananias.
 
p.s: Obrigada, Ananias. Concordo e penso: e o que haveria além de uma referência? A fé?

UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO 7

 
 

O diagnóstico e a terapêutica

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes.

O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó-de-me-ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO 6

FUI FEITO DE BARRO, MAS TAMBÉM DE TEMPO

Desde que eu era garoto soube que no Paraíso não existia memória. Adão e Eva não tinham passado.
Pode-se viver cada dia como se fosse o primeiro?


 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO 5



A ARTE PARA AS CRIANÇAS
Ela estava sentada numa cadeira alta, na frente de um perto de sopa que chega à altura de seus olhos. Tinha o nariz enrugado e os dentes apertados e os braços cruzados. A mãe pediu ajuda:
- Conta uma história pra ela, Onélio – pediu. Conta, você que é escritor...
E Onélio Jorge Cardoso, esgrimindo a colher de sopa, fez seu conto:
- Era uma vez um passarinho que não queria comer a comidinha. O passarinho tinha o biquinho fechadinho, fechadinho, e a mamãezinha dizia: “Você vai ficar anãozinho, passarinho, se não comer a comidinha.” Mas o passarinho não ouvia a mamãezinha e não abria o biquinho...
E então amenina interrompeu:
- Que passarinho de merdinha – opinou.
 


quarta-feira, 24 de julho de 2013

UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO 4



NÃO VIA A LUZ NEM PODIA CAMINHAR MAIS DE TRÊS PASSOS

Pouco antes do golpe, voltando de outra viagem, soube que a polícia tinha ido me buscar em minha casa de Montevidéu.
Me apresentei sozinho. Senti medo ao entrar. A porta se fechou às minhas costas com um ruído seco, de armadilha. O medo durou uma hora. Depois, foi-se de meu corpo. O que poderia me acontecer, pior que a morte? Não ia ser a primeira visita.

Estava de cara contra a parede, no pátio. O andar de cima era um centro de torturas. Atrás de mim passavam os presos. Eram arrastados pelo pátio. Alguns voltaram desfeitos: eram jogados no chão. À meia-noite soava a sirena do transmissor. Eu escutava o estrépito, os insultos, a excitação dos caçadores lançando-se à caça do homem. Os policiais regressavam ao amanhecer.
Um par de dias depois me puseram em um automóvel. Me transportaram, fui trancado em uma cela.

Risquei meu nome na parede.
Pelas noites escutava gritos.

Comecei a sentir necessidade de conversar com alguém. Me fiz amigo de um ratinho. Eu não sabia se ia ficar trancado dias ou anos, e em pouco tempo se perde a conta. Foram dias. Sempre tive sorte.
A noite em que me soltaram, escutavam murmúrios e vozes distantes, ruídos de metais,  enquanto caminhava pelos corredores com um guarda de cada lado. Então os presos se puseram a assobiar, suave, baixinho, como se estivessem soprando paredes. O assobio foi crescendo até que a voz, toda vozes em uma, começou a cantar. A canção sacudia as paredes.

Caminhei até minha casa. Era uma noite cálida e serena. Em Montevidéu começar o outono. Fiquei sabendo que uma semana antes tinha morrido Picasso. Passou um tempinho e começou o exílio.
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO 3



 NO FUNDO, TUDO É UMA QUESTÃO DE HISTÓRIA

 Vários séculos antes de Cristo, os etruscos enterravam seus mortos entre paredes que cantavam o júbilo de viver.
Em 1966 desci com Graziela nas tumbas etruscas e vimos as pinturas. Havia amantes em todas as posições, gente comendo e bebendo, cenas de música e celebração. Eu tinha sido amestrado catolicamente para a dor e fiquei vesgo nesse cemitério que era um prazeres.

E DE CORAGEM

Uma noite, há muitos anos, num boteco do porto de Montevidéu, estive até o amanhece bebendo com uma puta amiga, e ela me contou:
- Sabe uma coisa? Eu, na cama, não olho nunca os olhos dos homens. Eu trabalho com os olhos fechado.  Porque se eu olhar para os olhos dos homens fico cega, sabe?

MAS É PRECISO ESCOLHER

Quantas vezes confundimos a bravura com vontade morrer? A histeria não é história nem o revolucionário um amante da morte. A morte, que algumas vezes me tomou e me largou, volta e meia me chama até hoje, e eu mando ela para a puta que pariu.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DICA LEGAL: LYDIA DAVIS


Ideia para um documentário de curta-metragem

Representantes de diversos fabricantes de produtos alimentícios tentam abrir suas próprias embalagens.

In Tipos de perturbação, Lydia Davis, Companhia das Letras, SP, 2007


UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO

 
NOITE DE NATAL

Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua.
Na véspera do Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes espocavam e os fogos de artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, esperavam por ele para festejar.
Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: viro e descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o. Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada pela morte e aqueles olhos que pediam desculpas, ou talvez pedissem licença:
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão.
- Diga para... – sussurrou o menino – Diga para alguém que eu estou aqui.
 

domingo, 21 de julho de 2013

UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO



MULHER QUE DIZ TCHAU
Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens e trem. Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da minha sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas. Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão. E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.
Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisa boas, dizíamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)
Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). É um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
 
 


sábado, 20 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 7

Dona Rosita la soltera o El lenguaje de las flores. Los suenos d... Cover Art 

Para Sebastian e Laia:

'Doña Rosita:

Acostumei-me  a viver muitos anos fora de mim, pensando em coisas que se encontravam muito longe e agora, que essas coisas já não existem, continuo a dar volta e mais voltas por um sítio frio, à procura de uma saída que não hei-de encontrar nunca. Eu sabia tudo. Sabia que ele se tinha casado. Uma alma caridosa encarregou-se de mo contar e lá ia recebendo as suas cartas com um misto de entusiasmo e de soluços. Eu própria me espantava com essa reação. Se as pessoas não tivessem falado; se vocês não tivessem sabido; se ninguém, a não ser eu, o soubesse, as suas cartas e a sua mentira teriam alimentado a chama do meu entusiasmo como durante o primeiro ano da ausência dele. Mas toda a gente sabia e era como se me apontassem com um dedo que tornava ridículo o meu recato de noiva e conferia um ar grotesco ao meu leque de solteira. Cada ano que passava era como uma peça de roupa íntima que me arrancassem do corpo. E hoje casa-se uma amiga e a seguida outra e depois outra, e amanhã uma deles tem um filho e o filho cresce vem-me mostrar as notas que ele tem nos exames e se fazem casa novas e compõem novas canções e, eu sempre exatamente na mesma, com a mesma tremura, a mesma; eu na mesma que antes, a colher o mesmo cravo, a ver as mesmas nuvens; e, um dia, vou ao jardim da praça e reparo que já não conheço ninguém; raparigas e rapazes vão-me deixando pra trás, porque me canso, e um deles diz: “não passa de um solteirona”; e outro, bonito, de cabelo ondulado, comenta: “nessa já ninguém pega”. E eu oiço tudo isso e não posso gritar. Ando pra a frente, com boca cheia de veneno e com uma vontade dois de fugir, de tirar os sapatos, de descansar e de não me voltar a mexer nunca mais do meu canto.'

sexta-feira, 19 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 6



CLARO DE RELÓGIO

Sentei-me
Num claro do tempo.
Era um remanso
De silêncio,
De um branco silêncio,
Anel formidável
Onde os luzeiros
Se chocavam como os doze flutuantes
Números negros.


CENTENÁRIO DE VINICIUS DE MORAES 7

A propósito de Do Ódio Nasce o Amor

Em fins de 1949 eu, sabedor de que vários amigos meus achavam-se no México - e entre os mais provectos havia o pintor Di Cavalcanti, que eu não via desde muito - arrumei uma carona de automóvel em Los Angeles e toquei-me para lá.
Foi uma viagem gloriosa, na qual tudo deu certo. Fiquei apaixonado pelo México e sua gente, e hoje quando alguém me pergunta o que eu acho da terra digo sem reservas: toda boa. Toda boa é ela, com seu ar embriagante, sua pátina índia, seu colorido, sua fatalidade, suas mulheres e sua escura poesia. Vinte dias passei eu na maior boêmia e despreocupação, passeando com Di, bebendo tequila com Di, conversando com Di até altas.
Depois sobreveio Maria Asúnsolo. Maria Asúnsolo é o mistério do México. Alta e estática, trata-se de um dos seres mais lindos que já me foi dado ver, a cabeça quase toda branca, branca ela própria, andando, com um passo moço e felino, e sempre rodeada de silêncio.
Maria Asúnsolo foi a melhor amiga que Di Cavalcanti e eu fizemos no México. Um dia disse-lhe que gostaria muito de conhecer Gabriel Figueroa, o grande cinegrafista, mas disse assim meio por dizer - inclusive porque Figueroa estava ausente da cidade, em filmagem - rodando, se não me engano, esse mesmo Do ódio nasce o amor ora em exibição. Dois dias não eram passados e Maria Asúnsolo nos telefona para que passássemos em sua casa. Quando chegamos, lá estava Gabriel Figueroa muito bem embrulhadinho, de presente para mim.
O papo que tivemos foi esplêndido, tudo sobre cinema, e sobretudo câmera. A coisa que me deixou mais curioso foi, no entanto, esse fato de Figueroa desmentir bastante com a câmera em ação as coisas que teoriza sobre ela. Fez ele, por exemplo, a apologia do ambiente autêntico na filmagem com um ardor que me levou a ponderar por que é que ele sempre sobrecarrega seus quadros de teor plástico - o que tira muito a autenticidade dos ambientes filmados.
Figueroa teve a meu ver duas grandes influências - e ambas más, porque esses dois homens que o influenciaram eram por demais pessoais em seus estilos: Eisenstein, que é por assim dizer o criador do cinema mexicano, e Gregg Toland, o grande cameraman falecido, o responsável pela câmera em Cidadão Kane, Vinhas da ira, A longa viagem de volta, No tempo das diligências e outros tantos, obras mestras do cinema americano. Toland realmente ensinou a Figueroa o melhor do que ele sabe sobre câmera e aprova é que eu ouvi os mexicanos chamá-lo de maestro. Mas Figueroa absorveu "demais" dessas duas influências. O senso de composição, em Eisenstein - a quem o México maravilhou e que fez o seu filme mexicano com um verdadeiro sentido de descoberta - e a perfeição técnica, em Toland, criaram em Figueroa um complexo plástico que seu amigo, o diretor Emilio Fernandez, que sempre dirige seus filmes, não soube controlar.
O resultado é que a fotografia nos filmes da dupla mata muito o cinema - o ritmo cinematográfico, sem o qual a arte não se move.



quinta-feira, 18 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 5




Esta luz, este fogo que devora.
Esta paisagem gris que me rodeia.
Esta dor por uma só ideia.
Esta angústia de céu, mundo e hora.
 
Este pranto de sangue que decora
Lira já sem pulso, lúbrica teia.
Esse peso do mar que me golpeia.
Este alacrão que em meu peito mora.

 São grinalda de amor, cama de ferido,
Onde sem sono, sonho tua presença
Entre as ruínas de meu peito oprimido.

 E ainda que busque o cume da prudência,
Me dá teu coração vale estendido
Com cicuta e paixão de amarga ciência.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 4



Tenho medo de perder a maravilha
De teus olhos de estátua, e o acento
Que de noite me põe na face
A solitária rosa de teu alento.
 
Tenho pensa de ser nesta margem
Tronco sem ramos; e o que mais sinto
É não ter a flor, polpa ou argila,
Para o verme de meu sofrimento.

 Se tu és o meu tesouro oculto,
Se és minha cruz e minha dor molhada,
Se sou o cão de teu senhorio,

 Não me deixes perder o que ganhei
E decora as águas de teu rio
Com folhas de meu outono alienado.


terça-feira, 16 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 3



Com a fronte voltada para o chão e o pensamento no alto,
Ia eu andando, andando,

E na senda do tempo
Se lançava minha vida em busca de um desejo.
Junto ao caminho cinzento
Vi uma vereda em flor
E uma rosa
Cheia de luz, cheia de vida
E de dor.
Mulher, flor que se abre no jardim:
As rosas são como tua carne virgem,
Com sua fragrância inefável e sutil
E sua nostalgia da tristeza.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 2

 
O POETA PEDE A SEU AMOR QUE LHE ESCREVA
 
Amor de minhas entranhas, morte viva,
Em vão espero tua palavra escrita
E penso, com a flor que se murcha,
Que se vivo sem mim quero perder-te.
 
O ar é imortal. A pedra inerte
Nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
O mel gelado que a lua verte.
 
 Porém eu te sofri. Rasguei-me s veias,
Tigre e pomba, sobre tua cintura
Em duelo de mordiscos e açucenas.
 
 Enche, pois, de palavras minha loucura
Ou deixa-me vier em minha serena
Noite da alma para sempre escura.




domingo, 14 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 1

 
Eu pronuncio teu nome
Nas noites escuras,
Quando vêm os astros
Beber na lua
E dormem nas ramagens
Das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
De paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
 
Eu pronuncio teu nome,
Nesta noite escura,
E teu nome me soa
Mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
E mais dolente que a mansa chuva.
 
Amar-te-ei como então
Alguma vez? Que culpa
Tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
Que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
Desfolhar a lua!!


sábado, 13 de julho de 2013

Uma semana com YVES BONNEFOY 7



 O CORAÇÃO, A ÁGUA NÃO TURVADA

 Estás alegre ou triste?
- jamais eu soube, exceto

Que nada mesmo pesa
No coração sem volta.

 Nenhum passo de ave
Sobre o teto de vidro

Do coração vazado
De jardins e de sombra.

 Um cuidado de ti
Que bebeu minha vida

Mas naquela folhagem
Recordação nenhuma.

 Eu sou a hora simples
E a água não turvada.

Acaso soube amar-te
Não sabendo morrer?



sexta-feira, 12 de julho de 2013

CONVITE MUITO LEGAL:

BARCOS PRESOS NOS JACINTOS-DE-ÁGUA NO NILO, EGITO 
A TERRA VISTA DO CÉU
YANN ARTHUS-BERTRAND
Belo Horizonte
16 de julho a 1 de setembro, 2013
Grades do Parque Municipal
Avenida Afonso Pena 
FARDOS DE ALGODÃO, THONAKAHA, REGIÃO DE KORHOGO, COSTA DO MARFIM

Uma semana com YVES BONNEFOY 6


Choveu, durante a noite

A trilha tem o cheiro da relva molhada.
Depois a mão, de novo, do calor
Em nossos ombros, como
Para dizer que o tempo nada vai tomar-nos.


 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma semana com YVES BONNEFOY 5



O ESPELHO

Ainda ontem
Iam passando as nuvens
No negro fundo do quarto
Porém agora o espelho está vazio. 

Nevar

Se desencaixa do céu.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Uma semana com YVES BONNEFOY 4

Cativo de uma sala, do ruído, um homem mistura as cartas. Numa: “Eternidade, odeio-te” Noutra: “Liberte-me este instante!”
E numa terceira ainda escreve o homem: “Indispensável morte.” Assim na falha do tempo vai ele a caminhar, iluminado pela sua ferida.