sexta-feira, 19 de julho de 2013

CENTENÁRIO DE VINICIUS DE MORAES 7

A propósito de Do Ódio Nasce o Amor

Em fins de 1949 eu, sabedor de que vários amigos meus achavam-se no México - e entre os mais provectos havia o pintor Di Cavalcanti, que eu não via desde muito - arrumei uma carona de automóvel em Los Angeles e toquei-me para lá.
Foi uma viagem gloriosa, na qual tudo deu certo. Fiquei apaixonado pelo México e sua gente, e hoje quando alguém me pergunta o que eu acho da terra digo sem reservas: toda boa. Toda boa é ela, com seu ar embriagante, sua pátina índia, seu colorido, sua fatalidade, suas mulheres e sua escura poesia. Vinte dias passei eu na maior boêmia e despreocupação, passeando com Di, bebendo tequila com Di, conversando com Di até altas.
Depois sobreveio Maria Asúnsolo. Maria Asúnsolo é o mistério do México. Alta e estática, trata-se de um dos seres mais lindos que já me foi dado ver, a cabeça quase toda branca, branca ela própria, andando, com um passo moço e felino, e sempre rodeada de silêncio.
Maria Asúnsolo foi a melhor amiga que Di Cavalcanti e eu fizemos no México. Um dia disse-lhe que gostaria muito de conhecer Gabriel Figueroa, o grande cinegrafista, mas disse assim meio por dizer - inclusive porque Figueroa estava ausente da cidade, em filmagem - rodando, se não me engano, esse mesmo Do ódio nasce o amor ora em exibição. Dois dias não eram passados e Maria Asúnsolo nos telefona para que passássemos em sua casa. Quando chegamos, lá estava Gabriel Figueroa muito bem embrulhadinho, de presente para mim.
O papo que tivemos foi esplêndido, tudo sobre cinema, e sobretudo câmera. A coisa que me deixou mais curioso foi, no entanto, esse fato de Figueroa desmentir bastante com a câmera em ação as coisas que teoriza sobre ela. Fez ele, por exemplo, a apologia do ambiente autêntico na filmagem com um ardor que me levou a ponderar por que é que ele sempre sobrecarrega seus quadros de teor plástico - o que tira muito a autenticidade dos ambientes filmados.
Figueroa teve a meu ver duas grandes influências - e ambas más, porque esses dois homens que o influenciaram eram por demais pessoais em seus estilos: Eisenstein, que é por assim dizer o criador do cinema mexicano, e Gregg Toland, o grande cameraman falecido, o responsável pela câmera em Cidadão Kane, Vinhas da ira, A longa viagem de volta, No tempo das diligências e outros tantos, obras mestras do cinema americano. Toland realmente ensinou a Figueroa o melhor do que ele sabe sobre câmera e aprova é que eu ouvi os mexicanos chamá-lo de maestro. Mas Figueroa absorveu "demais" dessas duas influências. O senso de composição, em Eisenstein - a quem o México maravilhou e que fez o seu filme mexicano com um verdadeiro sentido de descoberta - e a perfeição técnica, em Toland, criaram em Figueroa um complexo plástico que seu amigo, o diretor Emilio Fernandez, que sempre dirige seus filmes, não soube controlar.
O resultado é que a fotografia nos filmes da dupla mata muito o cinema - o ritmo cinematográfico, sem o qual a arte não se move.



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