sábado, 6 de julho de 2013

DEVER DE CASA:


 
Fábula: do verbo latino fari, ‘falar’, como a sugerir que a fabulação é extensão natural da fala e, assim, tão elementar, diversa e escapadiça quanto esta; donde também falatório, rumor, diz-que-diz, mas também enredo, trama completa do que se tem para contar (acta est fabula, diziam mais uma vez os latinos, para pôr fim a uma encenação teatral); ‘narração inventada e composta de sucessos que nem são verdadeiros, nem verossímeis, mas com curiosa novidade admiráveis’, define o padre Bluteau em seu Vocabulário português e latino; história para a infância, fora da medida da verdade, mas também história de deuses, heróis, gigantes, grei desmedida por definição; história sobre animais, para boi dormir, mas mesmo então todo cuidado é pouco, pois há sempre um lobo escondido (lupus in fabula) e, na verdade, ‘é de ti que trata a fábula’, como adverte Horácio; patranha, prodígio, patrimônio; conto de intenção moral, mentira deslavada ou quem sabe apenas ‘mentirada gentil do que me falta’, suspira Mário de Andrade em ‘Louvação da tarde’; início, como quer Valéry ao dizer, em diapasão bíblico, que ‘no início era fábula’; fábula dos poetas, das crianças, dos antigos, mas também dos filósofos, como sabe o Descartes do Discurso do método (‘uma fábula’) ou o Descartes do retrato que lhe pinta J.B.Weenix em 1647, de perfil, segurando um calhamaço onde se entrelê um espantoso Mundus est fabula; ficção, não ficção e assim infinitamente; prosa, poesia, pensamento.
Raul Loureiro, Samuel Titan Jr.
In Sobre a Coleção Fábula, In por uma esquerda sem futuro, t.j.clark, Editora 34,SP, 2013 




 
p.s: não é exatamente um 'perfil'... entretanto, é verdadeiramente fabuloso.

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