quarta-feira, 24 de julho de 2013

UMA SEMANA COM EDUARDO GALEANO 4



NÃO VIA A LUZ NEM PODIA CAMINHAR MAIS DE TRÊS PASSOS

Pouco antes do golpe, voltando de outra viagem, soube que a polícia tinha ido me buscar em minha casa de Montevidéu.
Me apresentei sozinho. Senti medo ao entrar. A porta se fechou às minhas costas com um ruído seco, de armadilha. O medo durou uma hora. Depois, foi-se de meu corpo. O que poderia me acontecer, pior que a morte? Não ia ser a primeira visita.

Estava de cara contra a parede, no pátio. O andar de cima era um centro de torturas. Atrás de mim passavam os presos. Eram arrastados pelo pátio. Alguns voltaram desfeitos: eram jogados no chão. À meia-noite soava a sirena do transmissor. Eu escutava o estrépito, os insultos, a excitação dos caçadores lançando-se à caça do homem. Os policiais regressavam ao amanhecer.
Um par de dias depois me puseram em um automóvel. Me transportaram, fui trancado em uma cela.

Risquei meu nome na parede.
Pelas noites escutava gritos.

Comecei a sentir necessidade de conversar com alguém. Me fiz amigo de um ratinho. Eu não sabia se ia ficar trancado dias ou anos, e em pouco tempo se perde a conta. Foram dias. Sempre tive sorte.
A noite em que me soltaram, escutavam murmúrios e vozes distantes, ruídos de metais,  enquanto caminhava pelos corredores com um guarda de cada lado. Então os presos se puseram a assobiar, suave, baixinho, como se estivessem soprando paredes. O assobio foi crescendo até que a voz, toda vozes em uma, começou a cantar. A canção sacudia as paredes.

Caminhei até minha casa. Era uma noite cálida e serena. Em Montevidéu começar o outono. Fiquei sabendo que uma semana antes tinha morrido Picasso. Passou um tempinho e começou o exílio.
 

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