sábado, 20 de julho de 2013

UMA SEMANA COM GARCIA LORCA 7

Dona Rosita la soltera o El lenguaje de las flores. Los suenos d... Cover Art 

Para Sebastian e Laia:

'Doña Rosita:

Acostumei-me  a viver muitos anos fora de mim, pensando em coisas que se encontravam muito longe e agora, que essas coisas já não existem, continuo a dar volta e mais voltas por um sítio frio, à procura de uma saída que não hei-de encontrar nunca. Eu sabia tudo. Sabia que ele se tinha casado. Uma alma caridosa encarregou-se de mo contar e lá ia recebendo as suas cartas com um misto de entusiasmo e de soluços. Eu própria me espantava com essa reação. Se as pessoas não tivessem falado; se vocês não tivessem sabido; se ninguém, a não ser eu, o soubesse, as suas cartas e a sua mentira teriam alimentado a chama do meu entusiasmo como durante o primeiro ano da ausência dele. Mas toda a gente sabia e era como se me apontassem com um dedo que tornava ridículo o meu recato de noiva e conferia um ar grotesco ao meu leque de solteira. Cada ano que passava era como uma peça de roupa íntima que me arrancassem do corpo. E hoje casa-se uma amiga e a seguida outra e depois outra, e amanhã uma deles tem um filho e o filho cresce vem-me mostrar as notas que ele tem nos exames e se fazem casa novas e compõem novas canções e, eu sempre exatamente na mesma, com a mesma tremura, a mesma; eu na mesma que antes, a colher o mesmo cravo, a ver as mesmas nuvens; e, um dia, vou ao jardim da praça e reparo que já não conheço ninguém; raparigas e rapazes vão-me deixando pra trás, porque me canso, e um deles diz: “não passa de um solteirona”; e outro, bonito, de cabelo ondulado, comenta: “nessa já ninguém pega”. E eu oiço tudo isso e não posso gritar. Ando pra a frente, com boca cheia de veneno e com uma vontade dois de fugir, de tirar os sapatos, de descansar e de não me voltar a mexer nunca mais do meu canto.'

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