sábado, 31 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 28




 A REDE OU O QUE SEVILHA NÃO CONHECE

 Há uma lembrança para o corpo,
A tua: é a de um abraço de rede,
esse abraço de corpo inteiro
De qualquer rede do Nordeste,
Da rede que tua Andaluzia,
Que é tão da sesta, não conhece,
e mais que abraço, é o abraçar
De tudo o que pode estar nele;
é abraço sem fora e sem dentro,
é como vestir outra pele
Que ele possui e que o possui,
Uma rede nas veias, febre.

In Agrestes, João Cabral de Melo Neto, Record/Altaya, SP, 1985.
O escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto dialogou com grandes nomes que o antecederam por meio de uma nova poética

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 27

"O MAIS PROFUNDO É A PELE’

Lóri habitava a pele. E eu a amei.
Aconteceu há um ano ou mais, é difícil precisar, e Lóri ainda se sente confusa triste. Aliás, desde então, não importa a lua, Lóri tem estado assim meio muda. Antes, a luz fria da lua significava aconteceres indeléveis. De fato, descobria sua verdade nessa estranha penumbra clara. Filmes, livros e as esquinas com que  se esculpira, revelavam-na a essa luz. Enfim,  até aquela noite, Lóri sentia-se à vontade em noites assim: de encruzilhadas, meia luz, silêncio e lua. De repente, veio a tempestade. Trevas e trovoadas. Sem lua, em noite de tempestade, toda a verdade estremeceu. Só incerteza. Era Lóri assim confusa e triste, naquela madrugada. Talvez fosse agosto, a noite estava fria, chovia bravamente e a cidade barulhava confusa.

E aconteceu um inusitado, maior que qualquer pálida luz forte: aconteceu um som  em silêncio, que a tudo calou. Mas, com certeza, fora um som que  durava, ou melhor, era uma melodia que lhe cocegava inteira a pele, e impossível decidir se fora sobre ou sob a pele. Mas foi pela pele inteira. Foi assim: ser de repente música. Mas, sem ouvir exatamente. Ser.
Agora, passado um ano ou mais, Lóri diz alguma coisa. Uns monossílabos. Falar. Outro absurdo: naquela noite perdera a voz. Ou fingira perder, ou quisera perder, ou se impusera o silêncio, não sabe, isso ainda não sabe. Lembra-se de que, até aquele dia – corrige-se, até aquela noite – pensava conhecer a desilusão de quem ama. Lembra-se de que aquele ser música, ser aquele tremor de pele, fez com que  toda verdade de antes virasse mentira. Estremeceu e gozou. Refez-se. Agora, tudo é consonância. Um silêncio. Repensou: o amor é assim: um, dois, silêncio. E o ruído lá fora. É chuva? Pode ser.
Assim fomos nós/; ela, eu, e lá fora a chuva.
Lembra-se também de que, naquele dia – corrige-se novamente, noite – enfim, naquela noite, pela primeira vez, gargalhou baixinho, mas foi gargalhada, depois do orgasmo. E também, pela primeira vez, sussurrou, incoerentemente, sussurramos: macio, maluca, seu , lambança, quero, hummm, meu, ai, seio, mel. Depois, estremeceu, descolou-se de mim, foi embora. Enroscou-se nos lençóis, um simples mulher trêmula, e, diferentemente, eu quis abraçá-la, gosto de aconchegá-la  e lhe dar o contorno do meu peito. Quero acolhê-la em mim depois. Com Lóri é diferente, se há algo que odeio nas mulheres, e odeio muito nas mulheres, é essa mania de se desfazer depois do amor, de querer dormir agarrado, falando como criança, tenho horror. Lori é diferente, não se desfaz, recolhe-se, mas depois, se deixa apanhar.
 Nenhuma palavra a distrai, agora. Nem uma imagem. Nem um gesto de lucidez humana lhe vence o silêncio. Impenetrável. Reconheço o sentir de Lóri, ela é grata, e se achega mais em mim, quase inconsciente. Somente se eu a busco. Se não, ela se vira, e fica bem quieta. Lóri se sabe. Por isto, se recolhe. E eu a amo. Porque ela me ama e me deixa partir se eu quiser; mas eu sempre quero ficar abraçado com ela.
Por causa desse dia, quero dizer, daquela noite, sou e serei à espera de Lóri. Espero. Ela se perde nas ruas da cidade, “eu te vejo sumir por aí... te avisei que a cidade é um vão...”;  espero que volte. Ri de mim, me chama Penélope: “Que horas, me diga, que horas, me diga, que horas você volta?”. Aqui me sento, e a espero. Enquanto ela não vem eu me distraio com meus livros e  vigio o céu, quero descobrir qualquer sinal de chuva, qualquer sinal que alimente a memória do corpo, corpo que a ouviu sussurrar: “foolf...”, me arranhando levemente o peito, me arrepiando a alma, me machucando devagar... Lóri, uma mulher.

 In Ao longo deste sexo – Episódio 2 , Magda Maria Campos Pinto, Edição da autora, BH, 2006.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 26

Ficheiro:Fernando Pessoa Heteronímia.jpg
 XLIX

“Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, sem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme. 

In Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio /1 – Poemas completos de Alberto Caeiro, Editora Nova Fronteira, RJ, 1980.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 25

James Joyce
 18 de novembro de 1909

Não ouso dirigir-me a ti hoje por nenhum nome costumeiro.
O dia inteiro, desde que li tua carta de manhã, tenho me sentido como um cão vira-lata que levou uma chicotada nos olhos. Faz agora dois dias que estou acordado todo o tempo e tenho vagado pelas ruas como algum cachorro imundo que tivesse sido lanhado a chicote e posto para fora pela dona.

Escreves como uma rainha. Toda minha vida hei de lembrar-me da dignidade tranquila daquela carta, sua tristeza e escárnio, e a aprofunda humilhação que ela me causou. Perdi tua estima. Desgastei teu amor. Deixa-me então. Leva teus filhos para longe de mim para salvá-los da maldição de minha presença. Deixa-me mergulhar de novo no lodo de onde eu vim. Esquece-me e esquece minhas palavras ocas. Volta para tua própria vida e deixa-me seguir sozinho para minha ruína.

É um erro viveres com um animal vil como eu ou consentires que minhas mãos toquem em teus filhos. Age com coragem como sempre fizeste. Se decidires deixar-me enojada eu o suportarei como um homem, sabendo que o mereço mil vezes, e te darei dois terços de meus rendimentos.

Começo agora a perceber. Matei teu amor. Fiz que ficasses cheia de asco e escárnio por mim. Entrega-me às coisas e às companhias de que eu tanto gostava. Não me queixarei. Não tenho o direito de me queixar ou de tornar a levantar os olhos a ti. Degradei-me completamente a teu ver.

Deixa-me. É uma degradação e uma vergonha para ti viver com um desgraçado infame como eu. Age corajosamente e me deixa. Tu me deste as coisas melhores deste mundo, mas estavas só atirando pérolas a porcos.

Se me deixares hei de viver sempre com tua recordação, mais sagrada para mim do que Deus. Rezarei pelo teu nome.

Nora, lembra-te de alguma coisa de bom do pobre infeliz que te desonrou com seu amor. Considera que teus lábios o beijaram e teu cabelo caiu por cima dele e teus braços o apertaram contra ti.

Não vou assinar meu nome porque é o nome com que me chamavas quando me amavas e me distinguias e me deste tua alma jovem e terna para trair e machucar.”
 
In James Joyce, Cartas a Nora Barnacle, Massao Ohno Editor, SP, 1988.


terça-feira, 27 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 24

 
O HOMEM E O MAR

Homem livre, hás de ser sempre amigo do mar,
O mar é teu espelho e contemplas a mágoa
Da alma no desdobrar infindo de sua água,
 E nem ela abismo é menos de amargurar.
 
Apraz-te mergulhar em tua própria imagem;
O olhar o beija e o braço o abraça, e o coração
No seu próprio rumor encontra distração,
Ao ruído desta queixa indômita e selvagem.
 

Mas ambos sempre sois tenebrosos e quedos:

Homem, ninguém sondou teu fundo sorvedouro,
Mar, ninguém viu jamais teu íntimo tesouro,
Porque muito sabeis guardar vossos segredos!
 
Porém passados são evos inumerávies
Sem que remorso ou pena a vossa luta corte,
De tal modo quereis a carnagem e a morte,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!

In AS FLORES DO MAL, Charles Baudelaire, Editor Victor Civita, RJ, 1984.





PARA O GRUPO DE ESTUDOS:

ASSUNTO DO PRIMEIRO ENCONTRO A SER AGENDADO:


aparelhos-eletronicos-juventude 
p.s: obrigada, Giovana! obrigada, Vitor!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A MULHER 23

The Hannah Arendt Papers at the Library of Congress
“O que distingue o convívio dos homens na polis de todas as outras formas de convívio humano que eram bem conhecidas dos gregos, era a liberdade. Mas isso não significa entender-se aqui a coisa política ou a política justamente como um meio para possibilitar aos homens a liberdade, uma vida livre. Ser-livre e viver-numa-polis eram, num certo sentido, a mesma e única coisa. A propósito, apenas num certo sentido; posto que para poder viver numa polis, o homem já devia ser livre em outro sentido – ele não devia estar subordinado como escravo à coação de um outro nem como trabalhador à necessidade do ganha-pão diário. Primeiro, o homem precisava ser livre ou se libertar para a liberdade, e esse ser livre do ser forçado pela necessidade da vida era o sentido original do grego schole ou do romano otium, o ócio, como dizemos hoje. Essa libertação, diferente da liberdade, era um objetivo que podia e devia ser atingido através de determinados meios. O meio decisivo era a sociedade escravagista, o poder com o qual outros eram forçados a assumir a preocupação com a vida diária. Ao contrário de todas as formas e exploração capitalista que perseguem sobretudo objetivos econômicos e servem ao enriquecimento, no caso da exploração do trabalho escravo na Antiguidade tratava-se de liberar os senhores por completo do trabalho afim de dispô-los para a liberdade da coisa política. Essa libertação realizava-se através da coação e da força e baseava-se no domínio absoluto que o dono da casa exercia em seu domicílio. Mas esse domínio não era político, se bem que representasse uma condição indispensável de toda a coisa política.”
In  Hannah Arendt – O que é Política? – Bertrand Brasil – RJ, 1999.
p.s: aproveitem e assistam o filme; deixem-se tocar!
Liberdade = Responsabilidade


domingo, 25 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: MULHER 22


DESDE QUE O SAMBA É SAMBA


A tristeza é senhora,
Desde que o samba é samba é assim

A lágrima clara sobre a pele escura,
a noite e a chuva que cai lá fora
Solidão apavora,
tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece,
no quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer,
O samba ainda não chegou

O samba não vai morrer,
veja o dia ainda não raiou

O samba é o pai do prazer,
o samba é o filho da dor

O grande poder transformador



sábado, 24 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 21


 
“Quando, aos doze anos, o adolescente Wim pegou, pela primeira vez, uma câmera nas mãos e ficou parado na janela de sua casa, filmando a rua, sem movimentar a máquina e sem fazer cortes, não estava demonstrando nenhuma inexperiência. Estava revelando um estilo e como que reinventando o cinema, porque foi justamente assim que os Irmãos Lumière descobriram essa arte. Eles filmavam o que achavam interessante de imediato: trens, carruagens, pessoas e objetos que se moviam. Os espectadores saíam correndo da sala de projeção, com medo de serem atropelados pela maria-fumaça que se aproximava da tela, tal a sensação de realismo da imagem que o cinema inaugurava. Era um cinema primitivista, mudo, mostrando as coisas como elas são.
Assim eram os primeiros filmes de Wim Wenders, enquadrando planos fixos, demorados, repetidos, vazios, sem corte e sem preocupação com o enredo. Não têm a pressa dos filmes americanos, em que as cena de ação só podem durar alguns segundos, para não dar tempo ao espectador de pensar por si mesmo. Só aos poucos começam a aparecer os personagens e os temas. A imagem visual, como nos sonhos, é o que deve predominar.

E assim como os sonhos são a produção artística mais sofisticada e rica de que o ser humano é capaz, o olhar da câmera consegue fazer poesia com as imagens que focaliza, paradas ou em movimento. Para isso, um cineasta precisa ter muito senso de observação, valorizando as cenas banais do cotidiano e transformando-as em arte. Wenders fala do sonhar de olhos abertos, em seu livro A lógica das imagens. Nesses sonhos, “[ ] falta o controle ‘dramático’. Existe antes assim algo como um condutor inconsciente, que quer avançar sem lhe importar para onde; todo sonho quer ir a algum lugar, mas quem sabe aonde? Alguma coisa no inconsciente sabe-o; todavia, apenas o podemos descobrir quando deixamos as coisas fluírem, e isso foi o que eu tentei em todos esses filmes”.

In Wim Wenders – Psicanálise e Cinema, Geraldino Alves Ferreria Netto, Unimarco Editora, SP, 2001.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 20



“Até certo ponto, o melancólico benjaminiano pode ser entendido a partir da mesma chave interpretativa usada para explicar seus semelhantes pré-modernos: como um sujeito que se sente apartado da dimensão pública do Bem. Seja porque, em decorrência do processo que o conduziu à definição de sua via individual, ele se desadaptou, seja porque a hegemonia dos mandatos éticos e morais estaria migrando para outras instâncias de poder, inacessíveis à percepção dos cidadãos comuns formados na tradição da hegemonia da Igreja.
Dizer do desencontro entre o sujeito e o bem equivale a afirmar que as condições imaginárias que permitiam aos membros das sociedades pré-modernas construírem suposições compartilhadas a respeito dos desígnios do Outro haviam perdido consistência e sustentação na cultura. O Outro, como instância puramente simbólica, é inconsciente. Os sujeitos nascidos nos primeiros séculos da era moderna, diante da recém-conquistada liberdade de escolher seus destinos, foram condenados a sustentar, fantasmática e individualmente, sua versão a respeito do Bem – ou seja, sobre o bem do Outro, que para o neurótico se confunde sempre com a moeda com que ele deveria pagar a dívida simbólica. É nessas condições que o Bem (do Outro), representado no psiquismo pelo supereu herdeiro do complexo de Édipo, dissocia-se das representações do que seria, para o sujeito do desejo inconsciente, o seu bem – ou seja, sua via desejante, singular e intransferível.
Com diferentes configurações imaginárias, tal desajuste entre o Bem do Outro e o bem do sujeito estaria na origem de todas as formas anteriores de melancolia, ao menos no Ocidente, como expressão do mal-estar na cultura. Na modernidade, essa busca se tornara recentemente solitária: o (re)encontro com o bem do sujeito dependeria de um trabalho de criação singular e de um enfrentamento, sintomático ou criativo, com os desígnios do Outro. No caso particular de Baudelaire, em sua relação conflituosa com a modernidade, o objeto da melancolia ainda não havia se deslocado para o âmbito da vida privada. Seria um objeto pedido, sim, tal como Freud viria a descrever no século seguinte, porém um objeto cuja natureza ainda dizia respeito a representações e sentimentos relativos à pública (em oposição à privacidade familiar).

In O tempo e o cão, a atualidade das depressões, Maria Rita Kehl, Boitempo Editorial, SP, 2009.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

PRESENTE DA GIOVANA:

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Uma pequena mostra do nosso jardim.... nosso?, sim, somos assim, tudo junto, ao mesmo tempo, todos.... Obrigada, Giovana.

DEVER DE CASA: A mulher 19

 
 
‘CLITEMNESTRA

 Não coro, eu, simples mortal, ajoelhando-me
À tua frente, filho de uma divindade.
Por que serei altiva? Tenho de esforçar-me
Ao máximo para salvar minha Ifigênia.
Tu, que nasceste de uma deusa, bravo Aquiles,
Socorre-me em meu infortúnio! Socorre
Aquela que seu pai chamou de tua noiva,
Mentindo, é certo, mas de qualquer forma ajuda-a!
Eu mesma a trouxe até aqui acreditando
Que ela seria tua digna companheira
E preparei-a para ti, mas descobrimos
Que vim com ela a Áulis para vê-la morta!
Seria uma vergonha para ti, Aquiles,
Se não a quisesses defendê-la neste transe
(Se não te uniste a ela pelo casamento,
De qualquer forma te chamaram de seu noivo,
De noivo desta criatura infelicíssima!)
Por este queixo teu, pro esta mão direita,
Por tua mãe, estou pedindo, suplicando-te:
Em vez de permitires que teu nome ilustre
Traga a nossa memória minha perdição,
É justo que ele seja o de meu salvador!
Restam-me apenas como altar os teus joelhos;
Não tenho outros amigos a quem recorrer.
Sem dúvida já percebeste claramente
O plano de Agamêmnom – um primor de audácia
E crueldade, enquanto eu, frágil mulher,
Chego, como estás vendo, a este acampamento
Da expedição naval, cheio de homens sôfregos
Ousados para o mal, apesar de capazes
De agir corretamente se lhes aprouver.
Se decidires estender sobre esta mãe
Tuas mãos protetoras, estaremos salvas;
Se me deixares só, não vejo salvação.”

(...)

In Ifigênia em Áulis, Eurípides, tradução do grego: Mário da Gama Kury, Jorge Zahar Editor, RJ, 2002.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

EU AMO ARIANO SUASSUNA:

 
COM OS MEUS BONS VOTOS...

DEVER DE CASA: A mulher 18


 
“O que levou o cavaleiro medieval a correr riscos para proteger uma donzela? Henrique V a arriscar-se em Agincourt? Hamlet a tentar entrar em contato coma verdade ao custo de sua própria vida: Fitzcarraldo, de Werner Herzog, a subir o rio Amazonas com a troupe da Ópera? Os  portugueses, os vikings e os ingleses a navegar? Uma mulher a ter filhos? Ou algum outro exemplo que ocorra ao participante destas conversas, proveniente de sua própria experiência? O que leva certas pessoas a dedicar quarenta ou cinquenta anos de suas vidas para domar algum instrumento musical? A compor um poema? A exercer um ofício que se destina especificamente a ajudar alguém? A morrer por uma causa? A constituir família? No determinismo de funções que propusemos nas primeiras conversa, não sabemos se há ou não há razões. A origem, como o big-bang, foi probabilística. Se elas existem, não podemos saber quais são, e nem sequer podemos saber se elas existem ou não, pois tais respostas implicariam a posse de “O”.

A percepção de necessidades independe do desconhecimento de razões ou de sua existência. As pessoas podem intuir, em si mesmas, uma necessidade. Sendo real e genuína, não imitativa, é interior, tanto em sua realidade psíquica como em sua realidade material, formas diferentes de existência de um mesmo “O”, a vida incognoscível. Se essas pessoas mantiverem o hábito da verdade a ponto de serem fiéis a si mesmas, então elas poderão tentar ser homens caso sejam homens, mulheres se forem mulheres. Dentro de algo que lhes seja real e verdadeiro, intuirão alguma forma de ‘perseguir’ o que o senso comum costumeiramente denomina ‘destino’, mesmo que este se lhe afigure horrível para si mesmo ou para outrem, como retratado, por exemplo, em Damages, último filme de um dos grandes cineastas da atualidade, Louis Malle. Pessoas vitimadas por imaturidade, falta de relações objetais confiáveis, excesso de avidez e inveja, sabem muito pouco de si mesmas, e os efeitos destrutivos disto em sua vida são tão amplos quanto profundos.”

In Goethe e a Psicanálise, A apreensão da Realidade Psíquica, vol. 5, Paulo Cesar Sandler, Imago, RJ, 2001.
 
 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 17

 

MALENA

Malena canta el tango como ninguna
Y en cada verso pone su corazón.
A yuyo de suburbio su voz perfuma.
Malena tiene pena de bandoneón.
Tal vez, allá en la infancia, su voz de alondra
Tomó ese tono oscuro de callejón…
O acaso aquel romance, q sólo nombra
Cuando se pone triste con el alcohol.
Malena canta el tango con voz de sombra.
Malena tiene pena de bandoneón.
 
Tu canción

Tiene el frío del último encuentro.
Tu canción
Se hace amarga en la sal del recuerdo.
Yo no sé
Si tu voz es la flor de una pena;
Sólo sé
Que al rumor de tus tangos, Malena,
Te siento más buena,
Más buena que yo.

 
Tus ojos son oscuros como el olvido;
Tus labios, apretados como el rencor;
Tus manos, dos palomas que sienten frío;
Tus venas tienen sangre de bandoneón.
Tus tangos son criaturas abandonadas
Que cruzan sobre el barro del callejón
Cuando todas las puertas están cerradas
Y ladran los fantasmas de la canción.
Malena canta el tango con voz quebrada.
Malena tiene pena de bandoneón.
 

(Homero Manzi, Lucio Demare)
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 16


“A todos os que desejam conhecer a iniciação o mistério oferece, sem restrição de nascimento nem de classe, a promessa de uma imortalidade bem aventurada, que era na origem privilégio exclusivamente real; divulga, no círculo mais amplo dos iniciados, os segredos religiosos que pertencem como propriedade particular a famílias sacerdotais, como os Kérykes ou os Eumólpides. Mas, apesar dessa democratização de um privilégio religioso, o mistério em nenhum momento se coloca numa perspectiva de publicidade. Ao contrário, o que o define como mistério é a pretensão de atingir uma verdade inacessível por vias normais e que não poderia de maneira alguma ser ‘exposta’; é a pretensão de obter uma revelação tão excepcional que dá acesso a uma vida religiosa desconhecida do culto de Estado e que reserva aos iniciados uma sorte sem comparação com a condição ordinária do cidadão. O segredo toma assim, em contraste com a publicidade do culto oficial, uma significação religiosa particular: define uma religião de salvação pessoal visando a transformar o indivíduo independentemente da ordem social, a realizar nele uma espécie de novo nascimento que o destaque do estatuto comum o faça penetrar num plano de vida diferente. (...)
A primeira sabedoria constitui-se assim numa espécie de contradição em que se exprime sua natureza paradoxal: entrega ao público um saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior parte. Não tem ele por objeto revelar o invisível, fazer ver esse mundo dos ádela que se dissimula atrás das aparências? A sabedoria revela uma verdade tão prestigiosa que deve ser paga ao preço de duros esforços e que fica, como a visão dos epoptas, oculta aos olhos do vulgo; exprime certamente o segredo, formula-o em palavras, mas o povo não pode apreender seu sentido. Leva o mistério para a praça pública; faz dele o objeto de um exame, de um estudo, sem deixar entretanto completamente de ser um mistério. Aos ritos de iniciação tradicionais que proibiam o acesso às revelações interditas, a Sophia e a Philosophia substituem outras provas: uma regra de vida, um caminho de ascese, uma via de pesquisa que, ao lado das técnicas de discussão, de argumentação, ou dos novos instrumentos mentais como as matemáticas, conservam em seu lugar antigas práticas divinatórias, exercícios espirituais de concentração, de êxtase, de separação da alma e do corpo.”

In As origens do pensamento grego, Jean-Pierre Vernant, Difel, SP, 1981.

CENTENÁRIO DE VINICIUS DE MORAES 8

Para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs - comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.



 
"Esta coletânea de crônicas, se bem que mesclada a poemas de fato e de circunstância, é o primeiro livro de prosa do A. Tendo exercido o mister de cronista em várias épocas, nos últimos vinte anos, resolveu ele selecionar algumas delas, a instâncias, também, de seus Editores, e vir a público. Há, para o leitor que se der ao trabalho de percorrê-las em sua integridade, uma unidade evidente que as enfeixa: a de um grande amor. Foram elas publicadas em jornais e revistas vários, de alguns dos quais o A. perdeu o rastro. A maioria, no entanto, saiu em Última hora, no período que vai de 1959 a nossos dias. Os poemas, muitos dos quais escritos nesse mesmo interregno, visam a amenizar um pouco a prosa: dar-lhe, quem sabe, um "balanço" novo. E situam-se, quase todos, nessa fase do A. que vai de seus últimos dias de Paris, em 1957, onde foi escrito, em julho, "O amor dos homens", até o fim do seu estágio em Montevidéu, em 1960. Dentro, portanto, da experiência do grande amor. Copiar e ordenar mais de mil crônicas, do que resultou esta seleção, foi obra de D. Yvonne Barbare, secretária do A., cuja competência e dedicação não pode ele deixar de louvar aqui. Rio, setembro de 1962."

domingo, 18 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 15

 
“Sete anos antes, ela tinha me explicado que jamais sentira algo assim por outra pessoa, tanta emoção, uma onda tal de melancolia doce e quente que a invadira ao me ver fazer aquele gesto assim tão simples, tão aparentemente anódino, de aproximar meu copo muito lentamente do dela durante o jantar, com muita prudência, e, ao mesmo tempo, de maneira totalmente inconveniente para duas pessoas que mal se conheciam, que só tinham se encontrado uma vez antes daquela; de colocar meu copo pertinho do dela, para acariciar o bojo do copo dela, incliná-lo para tocá-lo levemente em uma simulação de brinde tão picotado quanto interrompido. Teria sido impossível ser ao mesmo tempo mais sedutor, mais delicado e mais explícito, ela tinha explicado, um concentrado de inteligência, de gentileza e de estilo. Ela sorrira para mim, logo em seguida confessara que tinha se apaixonado por mim a partir daquele instante. Portanto não foi por meio de palavras que eu tinha conseguido transmitir a ela aquele sentimento de beleza da vida e de adequação ao mundo que ela sentia com tanta intensidade à minha presença, nem com meus olhares nem com minhas ações, mas sim por meio da elegância daquele gesto tão simples que dirigi lentamente a ela com tal delicadeza metafórica que fez com que  ela de repente passasse a concordar com o mundo a ponto de me dizer, algumas horas mais tarde, com a mesma audácia, a mesma espontaneidade ingênua e corajosa, que a vida era bela, meu amor.”

 In FAZER AMOR, Jean-Philippe Toussaint, Editora Globo, SP, 2005.

DEVER DE CASA: A mulher 14

A pedidos: 'não me esqueça'

You've Got A Friend

When you're down and troubled
and you need a helping hand,
and nothing, whoa nothing is going right.
Close your eyes and think of me
and soon I will be there
to brighten up even your darkest nights.

You just call out my name,
and you know wherever I am
I'll come running, oh yeah baby
to see you again.
Winter, spring, summer, or fall,
all you got to do is call
and I'll be there, yeah, yeah, yeah.
You've got a friend.

If the sky above you
should turn dark and full of clouds
and that old north wind should begin to blow
Keep your head together and call my name out loud now
and soon I'll be knocking upon your door.
You just call out my name and you know where ever I am
I'll come running to see you again.
Winter, spring, summer or fall
all you got to do is call
and I'll be there, yeah, yeah, yeah.

Hey, ain't it good to know that you've got a friend?
People can be so cold.
They'll hurt you and desert you.
Well they'll take your soul if you let them.
Oh yeah, but don't you let them.

You just call out my name and you know wherever I am
I'll come running to see you again.
Oh babe, don't you know that,
Winter spring summer or fall,
Hey now, all you've got to do is call.
Lord, I'll be there, yes I will.
You've got a friend.
You've got a friend.
Ain't it good to know you've got a friend.
Ain't it good to know you've got a friend.
You've got a friend.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 13

DESAFINADO
 
Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é bossa-nova, isto é muito natural
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração

Fotografei você na minha Roleiflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados
Também bate um coração.....




quinta-feira, 15 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 12



PIETÀ (Miguel Ângelo)
 
Dor é incomunicável.
O mármore comunica-se,
Acusa-nos a todos.

 In Farewell, Carlos Drummond de Andrade, Record, RJ, 1996.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 11

 
Como dá vida o que mata,
Como o que consome, alenta.

 Já que morro, ingrata sorte,
Às mãos da tua porfia,
Deixa-me inquirir um dia
A causa da minha morte:
Se amor com impulso forte
Me rendeu, como me aparta
Do bem, que na alma retrata
Minha doce saudade,
Que em lágrimas persuade,
Como dá vida o que mata.
Nesta aflição importuna,
Em que meu coração passa,
Tudo é rigor que trespassa,
Nada golpe que desuna:
Que infausta a minha fortuna
Um bem, que me representa,
Cruel da vista me ausenta,
E não sabe a minha dor
Definir em tal rigor
Como o que consome, alenta.
 
In Cem poemas portugueses no feminino, Terramar, Lisboa, 2005.