domingo, 18 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 15

 
“Sete anos antes, ela tinha me explicado que jamais sentira algo assim por outra pessoa, tanta emoção, uma onda tal de melancolia doce e quente que a invadira ao me ver fazer aquele gesto assim tão simples, tão aparentemente anódino, de aproximar meu copo muito lentamente do dela durante o jantar, com muita prudência, e, ao mesmo tempo, de maneira totalmente inconveniente para duas pessoas que mal se conheciam, que só tinham se encontrado uma vez antes daquela; de colocar meu copo pertinho do dela, para acariciar o bojo do copo dela, incliná-lo para tocá-lo levemente em uma simulação de brinde tão picotado quanto interrompido. Teria sido impossível ser ao mesmo tempo mais sedutor, mais delicado e mais explícito, ela tinha explicado, um concentrado de inteligência, de gentileza e de estilo. Ela sorrira para mim, logo em seguida confessara que tinha se apaixonado por mim a partir daquele instante. Portanto não foi por meio de palavras que eu tinha conseguido transmitir a ela aquele sentimento de beleza da vida e de adequação ao mundo que ela sentia com tanta intensidade à minha presença, nem com meus olhares nem com minhas ações, mas sim por meio da elegância daquele gesto tão simples que dirigi lentamente a ela com tal delicadeza metafórica que fez com que  ela de repente passasse a concordar com o mundo a ponto de me dizer, algumas horas mais tarde, com a mesma audácia, a mesma espontaneidade ingênua e corajosa, que a vida era bela, meu amor.”

 In FAZER AMOR, Jean-Philippe Toussaint, Editora Globo, SP, 2005.

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