quarta-feira, 21 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 18


 
“O que levou o cavaleiro medieval a correr riscos para proteger uma donzela? Henrique V a arriscar-se em Agincourt? Hamlet a tentar entrar em contato coma verdade ao custo de sua própria vida: Fitzcarraldo, de Werner Herzog, a subir o rio Amazonas com a troupe da Ópera? Os  portugueses, os vikings e os ingleses a navegar? Uma mulher a ter filhos? Ou algum outro exemplo que ocorra ao participante destas conversas, proveniente de sua própria experiência? O que leva certas pessoas a dedicar quarenta ou cinquenta anos de suas vidas para domar algum instrumento musical? A compor um poema? A exercer um ofício que se destina especificamente a ajudar alguém? A morrer por uma causa? A constituir família? No determinismo de funções que propusemos nas primeiras conversa, não sabemos se há ou não há razões. A origem, como o big-bang, foi probabilística. Se elas existem, não podemos saber quais são, e nem sequer podemos saber se elas existem ou não, pois tais respostas implicariam a posse de “O”.

A percepção de necessidades independe do desconhecimento de razões ou de sua existência. As pessoas podem intuir, em si mesmas, uma necessidade. Sendo real e genuína, não imitativa, é interior, tanto em sua realidade psíquica como em sua realidade material, formas diferentes de existência de um mesmo “O”, a vida incognoscível. Se essas pessoas mantiverem o hábito da verdade a ponto de serem fiéis a si mesmas, então elas poderão tentar ser homens caso sejam homens, mulheres se forem mulheres. Dentro de algo que lhes seja real e verdadeiro, intuirão alguma forma de ‘perseguir’ o que o senso comum costumeiramente denomina ‘destino’, mesmo que este se lhe afigure horrível para si mesmo ou para outrem, como retratado, por exemplo, em Damages, último filme de um dos grandes cineastas da atualidade, Louis Malle. Pessoas vitimadas por imaturidade, falta de relações objetais confiáveis, excesso de avidez e inveja, sabem muito pouco de si mesmas, e os efeitos destrutivos disto em sua vida são tão amplos quanto profundos.”

In Goethe e a Psicanálise, A apreensão da Realidade Psíquica, vol. 5, Paulo Cesar Sandler, Imago, RJ, 2001.
 
 

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