quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 19

 
 
‘CLITEMNESTRA

 Não coro, eu, simples mortal, ajoelhando-me
À tua frente, filho de uma divindade.
Por que serei altiva? Tenho de esforçar-me
Ao máximo para salvar minha Ifigênia.
Tu, que nasceste de uma deusa, bravo Aquiles,
Socorre-me em meu infortúnio! Socorre
Aquela que seu pai chamou de tua noiva,
Mentindo, é certo, mas de qualquer forma ajuda-a!
Eu mesma a trouxe até aqui acreditando
Que ela seria tua digna companheira
E preparei-a para ti, mas descobrimos
Que vim com ela a Áulis para vê-la morta!
Seria uma vergonha para ti, Aquiles,
Se não a quisesses defendê-la neste transe
(Se não te uniste a ela pelo casamento,
De qualquer forma te chamaram de seu noivo,
De noivo desta criatura infelicíssima!)
Por este queixo teu, pro esta mão direita,
Por tua mãe, estou pedindo, suplicando-te:
Em vez de permitires que teu nome ilustre
Traga a nossa memória minha perdição,
É justo que ele seja o de meu salvador!
Restam-me apenas como altar os teus joelhos;
Não tenho outros amigos a quem recorrer.
Sem dúvida já percebeste claramente
O plano de Agamêmnom – um primor de audácia
E crueldade, enquanto eu, frágil mulher,
Chego, como estás vendo, a este acampamento
Da expedição naval, cheio de homens sôfregos
Ousados para o mal, apesar de capazes
De agir corretamente se lhes aprouver.
Se decidires estender sobre esta mãe
Tuas mãos protetoras, estaremos salvas;
Se me deixares só, não vejo salvação.”

(...)

In Ifigênia em Áulis, Eurípides, tradução do grego: Mário da Gama Kury, Jorge Zahar Editor, RJ, 2002.

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