sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 20



“Até certo ponto, o melancólico benjaminiano pode ser entendido a partir da mesma chave interpretativa usada para explicar seus semelhantes pré-modernos: como um sujeito que se sente apartado da dimensão pública do Bem. Seja porque, em decorrência do processo que o conduziu à definição de sua via individual, ele se desadaptou, seja porque a hegemonia dos mandatos éticos e morais estaria migrando para outras instâncias de poder, inacessíveis à percepção dos cidadãos comuns formados na tradição da hegemonia da Igreja.
Dizer do desencontro entre o sujeito e o bem equivale a afirmar que as condições imaginárias que permitiam aos membros das sociedades pré-modernas construírem suposições compartilhadas a respeito dos desígnios do Outro haviam perdido consistência e sustentação na cultura. O Outro, como instância puramente simbólica, é inconsciente. Os sujeitos nascidos nos primeiros séculos da era moderna, diante da recém-conquistada liberdade de escolher seus destinos, foram condenados a sustentar, fantasmática e individualmente, sua versão a respeito do Bem – ou seja, sobre o bem do Outro, que para o neurótico se confunde sempre com a moeda com que ele deveria pagar a dívida simbólica. É nessas condições que o Bem (do Outro), representado no psiquismo pelo supereu herdeiro do complexo de Édipo, dissocia-se das representações do que seria, para o sujeito do desejo inconsciente, o seu bem – ou seja, sua via desejante, singular e intransferível.
Com diferentes configurações imaginárias, tal desajuste entre o Bem do Outro e o bem do sujeito estaria na origem de todas as formas anteriores de melancolia, ao menos no Ocidente, como expressão do mal-estar na cultura. Na modernidade, essa busca se tornara recentemente solitária: o (re)encontro com o bem do sujeito dependeria de um trabalho de criação singular e de um enfrentamento, sintomático ou criativo, com os desígnios do Outro. No caso particular de Baudelaire, em sua relação conflituosa com a modernidade, o objeto da melancolia ainda não havia se deslocado para o âmbito da vida privada. Seria um objeto pedido, sim, tal como Freud viria a descrever no século seguinte, porém um objeto cuja natureza ainda dizia respeito a representações e sentimentos relativos à pública (em oposição à privacidade familiar).

In O tempo e o cão, a atualidade das depressões, Maria Rita Kehl, Boitempo Editorial, SP, 2009.

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