sábado, 24 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 21


 
“Quando, aos doze anos, o adolescente Wim pegou, pela primeira vez, uma câmera nas mãos e ficou parado na janela de sua casa, filmando a rua, sem movimentar a máquina e sem fazer cortes, não estava demonstrando nenhuma inexperiência. Estava revelando um estilo e como que reinventando o cinema, porque foi justamente assim que os Irmãos Lumière descobriram essa arte. Eles filmavam o que achavam interessante de imediato: trens, carruagens, pessoas e objetos que se moviam. Os espectadores saíam correndo da sala de projeção, com medo de serem atropelados pela maria-fumaça que se aproximava da tela, tal a sensação de realismo da imagem que o cinema inaugurava. Era um cinema primitivista, mudo, mostrando as coisas como elas são.
Assim eram os primeiros filmes de Wim Wenders, enquadrando planos fixos, demorados, repetidos, vazios, sem corte e sem preocupação com o enredo. Não têm a pressa dos filmes americanos, em que as cena de ação só podem durar alguns segundos, para não dar tempo ao espectador de pensar por si mesmo. Só aos poucos começam a aparecer os personagens e os temas. A imagem visual, como nos sonhos, é o que deve predominar.

E assim como os sonhos são a produção artística mais sofisticada e rica de que o ser humano é capaz, o olhar da câmera consegue fazer poesia com as imagens que focaliza, paradas ou em movimento. Para isso, um cineasta precisa ter muito senso de observação, valorizando as cenas banais do cotidiano e transformando-as em arte. Wenders fala do sonhar de olhos abertos, em seu livro A lógica das imagens. Nesses sonhos, “[ ] falta o controle ‘dramático’. Existe antes assim algo como um condutor inconsciente, que quer avançar sem lhe importar para onde; todo sonho quer ir a algum lugar, mas quem sabe aonde? Alguma coisa no inconsciente sabe-o; todavia, apenas o podemos descobrir quando deixamos as coisas fluírem, e isso foi o que eu tentei em todos esses filmes”.

In Wim Wenders – Psicanálise e Cinema, Geraldino Alves Ferreria Netto, Unimarco Editora, SP, 2001.

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