terça-feira, 27 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 24

 
O HOMEM E O MAR

Homem livre, hás de ser sempre amigo do mar,
O mar é teu espelho e contemplas a mágoa
Da alma no desdobrar infindo de sua água,
 E nem ela abismo é menos de amargurar.
 
Apraz-te mergulhar em tua própria imagem;
O olhar o beija e o braço o abraça, e o coração
No seu próprio rumor encontra distração,
Ao ruído desta queixa indômita e selvagem.
 

Mas ambos sempre sois tenebrosos e quedos:

Homem, ninguém sondou teu fundo sorvedouro,
Mar, ninguém viu jamais teu íntimo tesouro,
Porque muito sabeis guardar vossos segredos!
 
Porém passados são evos inumerávies
Sem que remorso ou pena a vossa luta corte,
De tal modo quereis a carnagem e a morte,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!

In AS FLORES DO MAL, Charles Baudelaire, Editor Victor Civita, RJ, 1984.





Nenhum comentário:

Postar um comentário