quarta-feira, 28 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 25

James Joyce
 18 de novembro de 1909

Não ouso dirigir-me a ti hoje por nenhum nome costumeiro.
O dia inteiro, desde que li tua carta de manhã, tenho me sentido como um cão vira-lata que levou uma chicotada nos olhos. Faz agora dois dias que estou acordado todo o tempo e tenho vagado pelas ruas como algum cachorro imundo que tivesse sido lanhado a chicote e posto para fora pela dona.

Escreves como uma rainha. Toda minha vida hei de lembrar-me da dignidade tranquila daquela carta, sua tristeza e escárnio, e a aprofunda humilhação que ela me causou. Perdi tua estima. Desgastei teu amor. Deixa-me então. Leva teus filhos para longe de mim para salvá-los da maldição de minha presença. Deixa-me mergulhar de novo no lodo de onde eu vim. Esquece-me e esquece minhas palavras ocas. Volta para tua própria vida e deixa-me seguir sozinho para minha ruína.

É um erro viveres com um animal vil como eu ou consentires que minhas mãos toquem em teus filhos. Age com coragem como sempre fizeste. Se decidires deixar-me enojada eu o suportarei como um homem, sabendo que o mereço mil vezes, e te darei dois terços de meus rendimentos.

Começo agora a perceber. Matei teu amor. Fiz que ficasses cheia de asco e escárnio por mim. Entrega-me às coisas e às companhias de que eu tanto gostava. Não me queixarei. Não tenho o direito de me queixar ou de tornar a levantar os olhos a ti. Degradei-me completamente a teu ver.

Deixa-me. É uma degradação e uma vergonha para ti viver com um desgraçado infame como eu. Age corajosamente e me deixa. Tu me deste as coisas melhores deste mundo, mas estavas só atirando pérolas a porcos.

Se me deixares hei de viver sempre com tua recordação, mais sagrada para mim do que Deus. Rezarei pelo teu nome.

Nora, lembra-te de alguma coisa de bom do pobre infeliz que te desonrou com seu amor. Considera que teus lábios o beijaram e teu cabelo caiu por cima dele e teus braços o apertaram contra ti.

Não vou assinar meu nome porque é o nome com que me chamavas quando me amavas e me distinguias e me deste tua alma jovem e terna para trair e machucar.”
 
In James Joyce, Cartas a Nora Barnacle, Massao Ohno Editor, SP, 1988.


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