quinta-feira, 29 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 26

Ficheiro:Fernando Pessoa Heteronímia.jpg
 XLIX

“Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, sem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme. 

In Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio /1 – Poemas completos de Alberto Caeiro, Editora Nova Fronteira, RJ, 1980.

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