sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 27

"O MAIS PROFUNDO É A PELE’

Lóri habitava a pele. E eu a amei.
Aconteceu há um ano ou mais, é difícil precisar, e Lóri ainda se sente confusa triste. Aliás, desde então, não importa a lua, Lóri tem estado assim meio muda. Antes, a luz fria da lua significava aconteceres indeléveis. De fato, descobria sua verdade nessa estranha penumbra clara. Filmes, livros e as esquinas com que  se esculpira, revelavam-na a essa luz. Enfim,  até aquela noite, Lóri sentia-se à vontade em noites assim: de encruzilhadas, meia luz, silêncio e lua. De repente, veio a tempestade. Trevas e trovoadas. Sem lua, em noite de tempestade, toda a verdade estremeceu. Só incerteza. Era Lóri assim confusa e triste, naquela madrugada. Talvez fosse agosto, a noite estava fria, chovia bravamente e a cidade barulhava confusa.

E aconteceu um inusitado, maior que qualquer pálida luz forte: aconteceu um som  em silêncio, que a tudo calou. Mas, com certeza, fora um som que  durava, ou melhor, era uma melodia que lhe cocegava inteira a pele, e impossível decidir se fora sobre ou sob a pele. Mas foi pela pele inteira. Foi assim: ser de repente música. Mas, sem ouvir exatamente. Ser.
Agora, passado um ano ou mais, Lóri diz alguma coisa. Uns monossílabos. Falar. Outro absurdo: naquela noite perdera a voz. Ou fingira perder, ou quisera perder, ou se impusera o silêncio, não sabe, isso ainda não sabe. Lembra-se de que, até aquele dia – corrige-se, até aquela noite – pensava conhecer a desilusão de quem ama. Lembra-se de que aquele ser música, ser aquele tremor de pele, fez com que  toda verdade de antes virasse mentira. Estremeceu e gozou. Refez-se. Agora, tudo é consonância. Um silêncio. Repensou: o amor é assim: um, dois, silêncio. E o ruído lá fora. É chuva? Pode ser.
Assim fomos nós/; ela, eu, e lá fora a chuva.
Lembra-se também de que, naquele dia – corrige-se novamente, noite – enfim, naquela noite, pela primeira vez, gargalhou baixinho, mas foi gargalhada, depois do orgasmo. E também, pela primeira vez, sussurrou, incoerentemente, sussurramos: macio, maluca, seu , lambança, quero, hummm, meu, ai, seio, mel. Depois, estremeceu, descolou-se de mim, foi embora. Enroscou-se nos lençóis, um simples mulher trêmula, e, diferentemente, eu quis abraçá-la, gosto de aconchegá-la  e lhe dar o contorno do meu peito. Quero acolhê-la em mim depois. Com Lóri é diferente, se há algo que odeio nas mulheres, e odeio muito nas mulheres, é essa mania de se desfazer depois do amor, de querer dormir agarrado, falando como criança, tenho horror. Lori é diferente, não se desfaz, recolhe-se, mas depois, se deixa apanhar.
 Nenhuma palavra a distrai, agora. Nem uma imagem. Nem um gesto de lucidez humana lhe vence o silêncio. Impenetrável. Reconheço o sentir de Lóri, ela é grata, e se achega mais em mim, quase inconsciente. Somente se eu a busco. Se não, ela se vira, e fica bem quieta. Lóri se sabe. Por isto, se recolhe. E eu a amo. Porque ela me ama e me deixa partir se eu quiser; mas eu sempre quero ficar abraçado com ela.
Por causa desse dia, quero dizer, daquela noite, sou e serei à espera de Lóri. Espero. Ela se perde nas ruas da cidade, “eu te vejo sumir por aí... te avisei que a cidade é um vão...”;  espero que volte. Ri de mim, me chama Penélope: “Que horas, me diga, que horas, me diga, que horas você volta?”. Aqui me sento, e a espero. Enquanto ela não vem eu me distraio com meus livros e  vigio o céu, quero descobrir qualquer sinal de chuva, qualquer sinal que alimente a memória do corpo, corpo que a ouviu sussurrar: “foolf...”, me arranhando levemente o peito, me arrepiando a alma, me machucando devagar... Lóri, uma mulher.

 In Ao longo deste sexo – Episódio 2 , Magda Maria Campos Pinto, Edição da autora, BH, 2006.

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