sexta-feira, 9 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 6



“Às vezes ocorria-lhe nestas noites de outono de o cheiro do mar frio que penetrava através das janelas fechadas, o ruído do gotejar da chuva sobre o telhado do depósito no jardim atrás da casa, o sussurro do vento na escuridão, despertarem nele repentinamente uma espécie de alegria silenciosa e intensa de que ele não imaginava ser ainda capaz. E quase se envergonhou dessa alegria estranha, era quase feio para ele sentir que o fato de estar vivo era um grande sucesso enquanto a morte de Ivria indicava o fracasso dela. Sabia bem que os atos humanos, todos os atos, todas as pessoas, os atos de paixão e ambição, as fraudes, sedução, acúmulo, evasão, os atos de malícia e de fracasso, a competição e adulação e a generosidade, os atos destinados a impressionar, despertar a atenção, para serem gravados na memória da família, ou do grupo ou do povo ou da humanidade, os atos insignificantes e os atos generosos, os calculados e os incontroláveis, os maldosos, quase todos levam sempre a um ponto onde não se pretendia chegar. Yoel tentou denominar em seu íntimo o desvio dessa senda geral e constante que distorce os diversos atos dos seres humanos de “a pilhéria universal ou o humor negro do mundo”. Mas mudou de ideia: a definição lhe pareceu extravagante. As palavras universo, vida, mundo eram muito grandiosas para ele, pareciam ridículas.”
 In CONHECER UMA MULHER, Amós Oz, Companhia das Letras, S.P, 1992



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