domingo, 11 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 8


 
“Haviam-se passado momentos ou três mil anos? Momentos pelo relógio em que se divide o tempo, três mil anos pelo que Lóri sentiu quando com pesada angústia, toda vestida e pintada, chegou à janela. Era uma velha de quatro milênios.

Não – não fazia vermelho. Era a união sensual do dia com a sua hora mais crepuscular. Era quase noite e estava ainda claro. Se pelo menos fosse vermelho à vista como o era nela intrinsecamente. Mas era um calor de luz sem cor, e parada. Não, a mulher não conseguia transpirar. Estava seca e límpida. E lá fora só voavam pássaros de penas empalhadas. Se a mulher fechava os olhos para não ver o calor, pois era um calor visível, só então vinha a alucinação lenta simbolizando-o: via elefantes grossos se aproximarem, elefantes doces e pesados, de casca seca,embora mergulhados no interior da carne por uma ternura quente insuportável; eles eram difíceis de se enganarem a si próprios, o que os tornava lentos e pesados.”

 In Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Clarice Lispector, Sabiá, RJ, 1973.


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