segunda-feira, 12 de agosto de 2013

DEVER DE CASA: A mulher 9


 
Maga , bruxa boa, mãe terra, feiticeira: os homens dizem coisas assim a seu respeito. Palavras lendárias, primordiais, que a definem como um modelo da feminilidade. Ela é a mulher, um arquétipo saído da cabeça, dos sonhos e dos medos do varão. E Alma se adaptou a essa miragem que outros imaginaram, porque seu grande êxito (e sua total derrota) consistiu em cumprir os desejos masculinos. Assim, vivenciando-se como musa no olhar do homem, Alma foi peça fundamental na vida do compositor Gustav Mahler, seu primeiro marido; na do importante pintor expressionista Oskar Kokoschka, seu tórrido amante durante três anos; na do arquiteto Walter Gropius, seu segundo cônjuge, fundador da Bauhaus; e na de Franz Werfel, o terceiro esposo, um romancista hoje meio esquecido mas muito famosoe  apreciado em sua época. Houve muitos outros cavalheiros rendidos aos seus pés, embora com eles as relações tenham sido platônicas: como Gustav Klimt, o conhecido pintor modernista, ou o dramaturgo e prêmio Nobel Gerhart Hauptmann. Alma tinha um excelente olfato pra discernir o talento criativo, e era justamente isso que a apaixonava.
Com seus homens, Alma foi magnífica. Era mãe e amante, ocupava-se do dia-a-dia até nos mínimos detalhes, administrava a economia de maneira admirável, organizava com primor a vida doméstica, colaborava eficazmente no trabalho de seus amados (copiava e instrumentava a música de Mahler, por exemplo) e, o que é mais importante, galvanizava seu parceiro, extraía-lhe o melhor de si mesmo como artista, insuflava-lhe força: “você restitui a vida aos inúteis”, disse-lhe Kokoschka. E até o biólogo Paul Kannerer, a cujo amor Alma nunca correspondeu, comentava: “Quando estou com ela, acumulo a energia de que preciso para produzir”. Porque Alma era uma espécie de bateria existencial, capaz de inundar o mundo com cores.”
 
In História de Mulheres, Rosa Montero, Agir, RJ, 2007.

 

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