segunda-feira, 30 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 23


DIREITO À MORTE

Viver é poder ter consigo
Certo passaporte no bolso

Que dá direito a sair dela,
Com bala ou veneno moroso.

Ele faz legal o que quer

Sem policiais e sem lamentos:
Fechar a vida como porta

Contra um fulano ou contra o vento; 

Fazer, num dia que foi posto
Na mesa em toalha de linho,

Fazer de seu vivo esse morto,
De um golpe, ou gole, do mais limpo.


 In Agrestes, João Cabral de Melo Neto, Record/Altaya, 1985.

domingo, 29 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 22


QUERO ACABAR ENTRE ROSAS

Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.

Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.

O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas flebilmennte sobre a colcha longínqua,

O que pensei? Tenho a boca seca, abstrata.
O que vivi? Era tão bom dormir.

 
In Fernando Pessoa, Poesia, Agir, poemas de Álvaro de Campos, RJ, 1970.

sábado, 28 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: a morte 21



 
“As pálpebras estão descidas

E as mãos em cruz sobre o peito...

MS quem é que pisa vidros?

Quem estala dedos no ar?

As pálpebras estão descidas.

Não mastigues folhas secas!

Não mastigues folhas secas,

Que te pode fazer mal...

 - quem é que canta no mar? –

As mãos repousam no peito.

E eu quero ver se bem cedo

Pescam meu corpo em Xangai.

 In 80 anos de Poesia, Mário Quintana, Editora Globo, RJ, 1995.
 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 20



“Depressa, amor, quero-te oferecer a minha boca!
A morte ronda na aldeia e poderá levar-me

*

Bem-amado, vem sentar-te um instante ao pé de mim
A vida é breve como o crepúsculo de uma noite de Inverno que passa.

*

Meu amor, abre o meu túmulo e vê
A poeira que cobre a bela embriaguez dos meus olhos

*

Ó túmulo arruinado, ó tijolos dispersos, o meu amado não é mais que poeira
E o vento da planície leva-se para longe de mim.

*

In A voz secreta das mulheres afegãs – O suicídio e o canto, Sayd Bahodine Mayrouh, Cavalo de Ferro Editora, Lisboa, 2005.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 19

O FILHO DO HOMEM

 Na sexta-feira amarrado
Como se fosse um bandido,
Jesus com grande alarido

A Pilatos foi levado.

Ele o julgando inocente
Ao rei Herodes mandou

E as próprias mãos as lavou
Para mostrar-se clemente


Os inimigos mesquinhos
As três horas o açoitaram

e sua fronte adornaram
Com uma coroa de espinhos

Escarnecido e humilhado

Entre golpes avançava
E a cruz nos ombros levava

Para ser crucificado.


As seis horas já despido,
E colocado na cruz,

O seu sangue em plena luz
Era ali mesmo vertido.

Os ladrões que tinha ao lado

Não cessaram de o ofender
Até o sol se esconder

Ante o povo aglomerado.


‘Deus! Por que me abandonou!’
Gemeu com voz apagada,

E uma esponja avinagrada
Para dar-lhe alguém levou.

Rasga-se o véu por inteiro
Do templo. A terra tremeu

Quando na cruz ele deu
O suspiro derradeiro.

Mas já a noite caía
E um soldado junto a cruz

O corpo nu de Jesus
Com a sua lança o feria.

Das feridas que o consomem
Sangue água ali brotaram.

E foi assim que trataram
Jesus, o filho do homem.

In Antologia Poética, Bertold Brecht, Elo Editora, RJ, 1983.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 18


“Alguém, trajado de seda branca, percebe que não pode despertar; pois está desperto e perturbado pela realidade. Assim se refugia medrosamente no sonho, e permanece de pé no parque, sozinho no negro parque. E a festa é longe. E a luz mente. E a noite o envolve, fresca. E pergunta a uma mulher que para ele se inclina:
‘És tu a noite?’

Ela sorri.
Então, ele se envergonha de seu traje branco.

E quereria estar longe, sozinho, armado.
Completamente armado.

.................................................................................
Esqueceste que por hoje és meu pajem? Queres abandonar-me? Para onde vais? Teu trajo branco dá-me direito a ti’.

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Suspirar pela tua grosseira roupa?

....................................................................................................
Sentes frio? Tens saudades de teus pais?
A condessa sorri.

Não. É somente porque a infância lhe caiu dos ombros, - esse suave trajo nubloso. Quem lhe arrebatou? ‘Tu?’ pergunta com uma voz que nunca tinha ouvido. ‘Tu?’

E agora não há nada por cima dele. E está despido como um santo. Claro e esguio.

 In A Canção de amor e de morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, tradução de Cecília Meireles, Editora Globo, 1988.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 17


POSTAL

Nenhum mar.

Um domingo. Um tridente.

Dois cavalos. Meu coração segue cego e feliz

Como

Carta

Extraviada.

In Cacaso -  Destino: Poesia, Antologia, Organização Ítalo Moriconi, José Olympio Editora, RJ, 2010.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Para ELIANE BRUM:

Não será o deslocamento que fará com que a percamos de vista. Nós gostamos e precisamos de você. Nesse tempo, junto com você, sustentamos nosso sentido para a vida e confirmamos o rumo. Até ali... logo mais, então...

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/eliane-brum/noticia/2013/09/tres-historias-reais-e-uma-despedida.html

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A MORTE 16

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VEM, DOCE MORTE
 
Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
Desfiam pálidos casulos
E o suspiro das árvores – secreto –
Não é senão prenúncio
De um delicado acontecimento. 

Quando queiras. Ao meio-dia, súbito
Espetáculo deslumbrante e inédito
De rubros panoramas abertos
Ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
Com celeiros refertos e intocados. 

Quando queiras. Presentes as estrelas
Ou já esquivas, na madrugada
Com pássaros despertos, à hora
Em que os campos recolhem as sementes
E os cristais endurecem de frio.
 

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
Que a teu primeiro sopro cederei distraída
Como um pensamento cortado
Pela visão da lua
Em que acaso – mais alto – refloresça.
 
In Flor da morte, Henriqueta Lisboa, Editora UFMG, Bh, 2004.
 


domingo, 22 de setembro de 2013

BOA SEMANA: com Benjamin e Hannah

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“Benjamin foi provavelmente o marxista mais singular já produzido por esse movimento que, sabe Deus, teve seu quinhão completo de excentricidades. O aspecto teórico que acabaria por fasciná-lo era a doutrina da superestrutura, que fora apenas rapidamente esquematizada por Marx, mas assumira então um papel desproporcional no movimento, quando esse passou a contar com um número desproporcionalmente grande de intelectuais e, portanto, gente interessada apenas na superestrutura. Benjamin utilizou essa doutrina apenas como um estímulo heurístico-metodológico e dificilmente estava interessado em sua base histórica ou filosófica. O que aí o fascinava era que o espírito e sua manifestação material estavam tão intimamente ligados que parecia possível descobrir, em todas as partes, as correspondances de Baudelaire, as quais, se fossem adequadamente correlacionadas, se esclareciam e se iluminariam umas às outras de modo que , ao final, não mais precisariam de nenhum comentário interpretativo ou explicativo. Ele estava interessado na correlação entre uma cena de rua, uma especulação na Bolsa de Valores, um poema, um pensamento, com a linha oculta que as une e permite ao historiador ou ao filólogo reconhecer que devem ser todos situados no mesmo período. Quando Adorno criticou a ‘apresentação aberta de atualidades ‘ de Benjamin, pegou o ponto exato; era precisamente o que Benjamin fazia e queria fazer. Fortemente influenciado pelo surrealismo, era a ‘tentativa de capturar o retrato da história nas representações mais insignificantes da realidade, por assim dizer em suas raspas’. Benjamin tinha paixão pelas coisas pequenas, até minúsculas; Scholem conta da sua ambição de colocar cem linhas escritas na página comum de um caderno de notas, e de sua admiração por dois grãos de trigo na seção judaica do Museu Cluny, ‘onde um alma irmã inscrevera na íntegra o Shema Israel'. Para ele, a dimensão de um objeto era inversamente proporcional à sua significação. E essa paixão, longe de ser um capricho, derivava diretamente da única concepção de mundo que teve uma influência decisiva sobre ele, a convicção de Goethe sobre a existência fática de um Urphänomen, um fenômeno arquetípico, uma coisa concreta a ser descoberta no mundo das aparências, na qual coincidiriam ‘significado (Bedeutung, a mais goethiana das palavras, é recorrente nos textos de Benjamin) e fosse o objeto, tanto mais provável pareceria poder conter tudo sob a mais concentrada forma; daí seu deleite em que dois grãos de trigo contivessem todo o Shema Israel, a essência mesma do judaísmo, a mais minúscula essência parecendo na mais minúscula entidade, de onde, em ambos os casos, tudo o mais se origina, embora em significado não possa ser comparado à sua origem. Em outras palavras, o que desde o início fascinou Benjamin nunca foi uma ideia, foi sempre um fenômeno. ‘O que parece paradoxal em tudo que é, com justiça, chamado de belo é o fato de que apareça’, e esse paradoxo – ou, mais simplesmente, a maravilha da aparência – sempre esteve no centro de todas as suas preocupações.”

 In Homens em tempos sombrios, Hannah Arendt, Companhia das Letras, SP, 2010.
(Seated from left) Nicola Chiaromonte, Mary McCarthy, Robert Lowell. (Standing from left) Heinrich Blucher, Hannah Arendt, Dwight McDonald, and Gloria MacDonald. Courtesy Vassar College Library.

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 15, com Cecília Meireles


            Primavera
Cecília Meireles

         A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

          Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

         Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

        Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

        Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

       Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

       Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

      Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

    Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

in Cecília Meireles -- Obra em Prosa - Vol 1, Editora Nova Fronteira - RJ, 1998.





sábado, 21 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 14



OS DOIS LADOS
 

Deste lado tem meu corpo
Tem o sonho

Tem a minha namorada na janela
Tem as ruas gritando de luzes e movimentos

Tem meu amor tão lento
Tem o mundo batendo na minha memória

Tem o caminho pro trabalho.
 

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
Tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas

Tem a minha noiva definitiva me esperando com flores na mão,
Tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.


 In Poemas e Bumba-meu-Poeta, Murilo Mendes, Nova Fronteira, RJ, 1988.
 


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

DOAR É ENCONTRAR AR...


Amigos, quasesertaneiros, já o sabem... sabem que estamos aprendendo, praticando, caminhando.... vamos lá....

 
 
REUNIÃO VI - Não Desperdice  Sua Vida




APRENDIZ DE PRIMAVERA: A MORTE 13

Foto: ↗⁀☆ ╭•⊰✿☆‿↗⁀☆ ╭•⊰✿☆‿↗⁀☆ ╭•⊰✿☆‿↗⁀☆ ╭•⊰✿

Boa noite Amigos

Que a paz da noite seja um doce abraço ao coração

Que traga a esperança, com a mais pura emoção
E que a fé um tudo de melhor, acalente a alma
Que as esperas tenham mais calma;
E a felicidade esteja presente em cada instante.
E os sonhos venham para ser carinhos.
Num doce acalanto de poesias;
que revelam suaves magias
No mais lindo de cada sentimento.
Deixando a certeza,de um despertar inteiro de amor e paz.

Claudia Salles

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À MORTE
 

Morte, minha senhora dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte. 

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte. 

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto! 

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!

 In Sonetos, Florbela Espanca, Publicações Anagrama Ltda, Livraria Rio, 1999.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 12




“Não acredito em pressentimentos, nem agoiros

Me assustam. Não evito a calúnia

Ou o veneno. Não há morte sobre a terra.

Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há

Que ter medo da morte aos sete

Nem  aos setenta. O real e a luz

Existem, mas não a morte ou a treva.

Viemos hoje à enseada,

E o cardume da imortalidade veio

Quando eu puxava as redes.

 In 8 ícones, Arseniï Tarkovskiï, Assírio &Alvim, Lisboa, 1987.
Mergulhadores rodeados por um enorme cardume de peixes no fundo do mar

CENTENÁRIO DE VINICIUS DE MORAES 9

Epitáfio


Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.
  
 (Oxford, 1939.)
 
‘Poemas esparsos’ é uma seleção de poemas inéditos, publicado postumamente, que percorre a produção de Vinicius desde os anos 30 até os anos 70. Faz parte do livro um ensaio sobre sua poesia assinado por Ferreira Gullar, crônicas de Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade e um depoimento de Caetano Veloso.