quinta-feira, 5 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: CARTAS 5


Londres, sexta-feira, de tarde. 4 de julho 1873
Volte, volte, caro amigo, único amigo, volte. Juro que serei bom. Se fui desagradável com você, foi tudo uma brincadeira que me havia deixado obstinado, eu estou mais do que arrependido. Volte, tudo isto será esquecido. Que infelicidade que você tenha acreditado nesta brincadeira. Já são dois dias que choro sem parar. Volte. Tenha coragem, caro amigo. Nada está perdido. Tudo que você tema fazer é viajar de volta. Nós viveremos aqui com coragem, pacientemente. Ah, eu imploro! É por seu bem, além disto. Volte, você encontrará todas as suas coisas. Espero que agora você saiba que não houve nada de verdadeiro em nossa discussão. Terrível momento! Por que você não veio quando eu lhe fiz sinal para que abandonasse o barco? Nós vivemos juntos dois anos para chegarmos a isto? O que vai fazer? Se você não quiser voltar aqui, quer que eu vá ao seu encontro onde você estiver?
Sim, fui eu o errado.
Oh, diga, você me esquecerá?
Não, você não pode me esquecer.
Você está sempre comigo.
Diga, responda a seu amigo, não devemos mais viver juntos?
Tenha coragem. Responda-me logo.
Não posso mais ficar aqui por muito tempo.
Escute apenas o seu bom coração.
Diga-me logo se devo ir me unir a você.
Seu por toda a vida.

RIMBAUD

Responde logo, posso ficar aqui o mais tardar até segunda-feira à noite. Ainda não tenho nem um penny, não posso pôr esta carta no correio. Confiei seus livros e seus manuscritos a Vermersch.

Se eu não devo mais revê-lo, entrarei para a marinha ou para o exército. Oh, volte, eu choro a cada momento. Diga-me para ir ao seu encontro, e irei,diga, telegrafe – eu preciso partir segunda-feira à noite, aonde você vai? O que você quer fazer?

In Correspondência de Rimbaud, L&PM,SP, 1991.
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