sexta-feira, 6 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: CARTAS 6

Arles, 21 de fevereiro de 1888
Meu Théo,
Durante a viagem pensei em você no mínimo tanto quanto na nova região que eu avistava.
Ao menos imagino que, com o tempo, talvez de vez em quando você venha para cá. Parece-me quase impossível que se possa trabalhar em Paris, a menos que se tenha um retiro para descansar e para recobrar a calma e o aprumo. Sem isto, fatalmente fica-se entorpecido.
Por ora, apenas lhe direi que, para começar, há em toda parte pelo menos sessenta centímetros de neve, e continua a nevar. Arles não me parece maior que Breda ou Mons.
Antes de chegar a Tarascon, notei uma paisagem magnífica com imensas rochas amarelas estranhamente emaranhadas nas formas mais imponentes.
Nos pequenos vales entre estes penhascos alinhavam-se pequenas árvores redondas, de folhagem verde-oliva ou verde-cinza, que bem poderiam ser limoeiros.
Mas aqui em Arles a região parece plana. Percebi magníficas terras vermelhas plantadas com vinhas, tendo ao fundo montanhas do mais delicado lilás. E as paisagens nevadas com os cumes brancos contra um céu tão luminoso quanto a neve eram exatamente como as paisagens de inverno que os japoneses fazem.
Aqui o meu endereço:
Restaurant Carrel
30, Rue Cavalerie, Arles (Département Bouches-du-Rhône)
Apenas dei uma voltinha pela cidade, estando mais ou menos estourado ontem à tarde.
Escreverei logo – um antiquário onde fui ontem aqui nesta mesma rua disse-me conhece um Monticelli. Com um aperto de mão para você e os companheiros.
Do seu,
Vincent.
IN Cartas a Théo, Vincent Van Gogh, L&PM, Porto Alegre, 1997.



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