sábado, 7 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: CARTAS 7

16 de setembro de 1904
Caríssima Nora. Escrever cartas está se tornando uma coisa quase impossível entre nós. Como detesto estas frias palavras escritas! Pensei que não te ver hoje não fosse aborrecer-me, mas vejo que as horas demoram muito a passar. Meu cérebro parece estar todo vazio agora. Quando eu te esperava ontem à noite ainda estava mais intranquilo. Parecia-me que eu estava travando combate por ti com todas as forças religiosas e sociais da Irlanda e que não tinha nada em que me apoiar a não ser eu mesmo. Aqui não há vida – nem naturalidade nem fraqueza. As pessoas vivem juntas nas mesmas casas a vida inteira e no fim estão tão distantes entre si como nunca. Tens certeza de que não estás dominada por qualquer incompreensão a meu respeito? Lembra-te que qualquer pergunta que me fizeres eu responderei com sinceridade e honradez. Mas se não tiveres nada a perguntar também te compreenderei. O fato de seres capaz de decidir colocar-te ao meu lado assim na minha vida incerta, me enche de grande orgulho e alegria. Espero que não vás arrasar tudo no teu caminho hoje. Talvez contrabalances a demora de amanhã cedo enviando-me uma carta. Disseste que foi só há uma semana que tivemos nossa famosa entrevista sobre as cartas, mas não é com coisas assim que chegamos anos aproximar tanto um do outro? Deixa-me, caríssima Nora dizer-te quanto quero que compartilhes de qualquer felicidade que possa vir a ser minha e te afirmar meu grande respeito por esse teu amor que é meu desejo merecer e retribuir.
Jim
In James Joyce – Cartas a Nora Barnacle – Massao Ohno Editor, SP, 1988.
 


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