domingo, 1 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: CARTAS

Viena, 10 de julho de 1900
IX., Berggasse 19
 
Querido Wilhelm,
É fácil de explicar e resolver, afinal. Como você não pode, naquela ocasião, indicar-me uma data definitiva, e eu tinha uma, adiei nosso congresso para um período posterior durante as férias. Agora que você revelou seus planos, posso apenas responder que eles me convêm esplendidamente. Posso estar em Innsbruck no dia 31 de julho e lá permanecer com você até 4 de agosto; as mulheres poderão seguir no dia 4 de agosto, e então irei a Landeck com Martha, de onde poderemos pegar uma carruagem para Trafoi. Se nenhuma criança adoecer, nenhuma ponte ruir e não houver nenhum outro percalço, é assim que vai ser. Tenho que superar um ligeiro sentimento de desgosto por, mais uma vez, não ter a oportunidade de ver as crianças, e pelo fato de que você me encontrará no auge da exaustão e do mau humor, mas o principal é que vamos estar juntos; qualquer adiamento implica riscos. Você não me disse nada sobre seus planos ulteriores, de modo que não sei se alguma outra coisa seria possível durante essas férias. Portanto, isso fica certado e eu o aguardo ansiosamente, depois de ter passado um longo período sem ter nada que aguardar.
Continuo muito curioso sobre os detalhes de sua reabilitação e sobre tudo o mais que você me promete, embora não possa prometer reciprocidade. Estou totalmente esgotado por meu trabalho e tudo aquilo que, associado a ele,está germinando,atraindo e ameaçando. O verão, por falar nisso, não foi tão ruim. A questão de conseguir trabalho no verão, que parecia ser um problema há um ano, agora se resolveu por si  mesma. Por um lado, isso não é necessário; por outro, eu não teria forças. Os grandes problemas permanecem ainda totalmente insolúveis. Tudo está fluindo e alvorecendo, num inferno intelectual, camada após camada; no âmago mais escuro, vislumbres dos contornos de Lúcifer-Amor.
O fato de as pessoas gostarem ou não do livro do sonho está começando a ser indiferente pra mim, e começo a deplorar-lhe o destino. Obviamente, essa gota d’água não tornou a pedra menos dura. Além disso, não tive nenhuma notícia de outras resenhas e o reconhecimento ocasional que recebo nos contatos pessoais mostra-se mais ofensivo do que a habitual condenação silenciosa. Eu mesmo, até o presente, não descobri nada que precisasse de correção. Ele é verdadeiro e sem dúvida permanece verdadeiro. Adiei para outubro o ensaio sucinto sobre o sonho.
De qualquer modo, nosso encontro no dia 31 de julho ou 1º de agosto, no máximo, é um raio de luz. Vamos agarrar-nos a ele. Ainda podemos discutir os detalhes. Talvez seja possível encaixar outro lugar que não Innsbruck na mesma rota. Mas isso realmente não tem importância.
Com meus cumprimentos cordiais a sua querida esposa e filhos,
Seu,
Sigm.

 In A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess – 1887-1904 – Imago Editora Ltda. RJ, 1986.


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